Em um mundo desenhado para capturar atenção, recuperar o controle exige intenção, desconforto inicial — e paciência Cinco dias após o início de 2026, enquanto milhões de pessoas tentam cumprir promessas de Ano Novo, a psiquiatra Anna Lembke, chefe da Stanford Addiction Clinic, faz um alerta direto: os vícios modernos não se parecem mais com os do passado — e a tecnologia está no centro desse fenômeno. Em um novo episódio do podcast Diary of a CEO, apresentado por Steven Bartlett, Lembke discute como hábitos digitais aparentemente inofensivos estão moldando padrões de dependência, afetando foco, produtividade, relações humanas e a capacidade de escolha. Segundo Lembke, o problema não é apenas o uso excessivo da tecnologia, mas a forma como ela foi desenhada para explorar os mecanismos de recompensa do cérebro. Atividades naturais como comer e dormir liberam dopamina em níveis controlados. Já drogas — e agora plataformas digitais — provocam liberações muito mais intensas, criando ciclos de busca constante por estímulo. 'Ao que estamos assistindo hoje é à 'drogificação' da conexão humana por meio das redes sociais, aplicativos de relacionamento e agora da inteligência artificial, que é projetada para nos agradar, validar e reforçar comportamentos', afirma. O custo invisível da gratificação instantânea Para a especialista, a ausência de atrito no mundo digital é um dos maiores problemas. Interações mediadas por telas exigem pouco esforço emocional ou cognitivo, afastando as pessoas das atividades difíceis — e essenciais — da vida real, como construir relações profundas, desenvolver projetos ou lidar com frustrações. Embora a tecnologia tenha, em tese, liberado mais tempo para lazer e criatividade, o resultado tem sido o oposto. 'Hipoteticamente, estaríamos ajudando uns aos outros, lendo filosofia, cuidando do planeta', diz Lembke. 'Na prática, estamos passando uma quantidade enorme de tempo online, consumindo pornografia, jogando videogames e conversando com chatbots.' O maior risco, segundo ela, não é que as máquinas dominem os humanos, mas que as pessoas entreguem sua própria agência. 'Estamos nos entretendo até a exaustão', resume. Como quebrar o ciclo do vício em dopamina Ao longo do episódio, Lembke apresenta estratégias práticas para quem quer romper hábitos compulsivos — especialmente os digitais. O primeiro passo é medir o problema. Ela recomenda o método Timeline Follow Back, no qual a pessoa revisita mentalmente cada dia da semana e contabiliza quantas horas gastou consumindo seu 'vício de escolha', como redes sociais ou vídeos. O choque de perceber que uma hora por dia pode virar 12 ou 14 horas semanais é, segundo ela, um poderoso gatilho de mudança. 'Somos péssimos observadores de nós mesmos quando estamos caçando dopamina', afirma. Outra recomendação é começar o dia pelas tarefas mais difíceis. Exercício físico, organização do dia, arrumar a cama ou planejar prioridades devem vir antes do café, do celular ou de qualquer tela. 'Esses estímulos são tão poderosos que sequestram nossos objetivos se aparecem cedo demais', explica. Iniciar o dia com esforço reduz a chance de um colapso de energia mais tarde. Por fim, Lembke reforça a importância do tempo. A abstinência precisa ser longa o suficiente para que o cérebro redefina seus circuitos de recompensa. Em média, o processo leva cerca de quatro semanas, sendo os primeiros 10 a 14 dias os mais difíceis. Após aproximadamente 28 dias, a intensidade do desejo cai de forma significativa. A reflexão final é simples, mas desconfortável: talvez seja mais realista assumir um compromisso de quatro semanas do que prometer uma mudança radical por um ano inteiro. Em um mundo desenhado para capturar atenção, recuperar o controle exige intenção, desconforto inicial — e paciência.