Promover o melhor técnico pode ser uma ótima decisão, desde que a empresa entenda o que está mudando Promoção costuma seguir um roteiro conhecido: quem entrega mais, sobe. Quem resolve problemas difíceis, ganha mais responsabilidade. O problema é quando a empresa confunde excelência técnica com capacidade de liderança. A pessoa é brilhante no que faz, mas o novo cargo exige outra competência: influenciar, desenvolver, priorizar, decidir e sustentar conversas difíceis. Quando isso não é reconhecido, a organização perde duas vezes: perde um ótimo técnico e não ganha um líder funcional. Promoções mal desenhadas são uma das principais causas de queda de performance pós-subida, porque mudam o tipo de trabalho e o critério de sucesso sem mudar o suporte e as expectativas. O erro não está na pessoa. Está no sistema de transição. O que muda de verdade quando você vira líder O trabalho deixa de ser 'fazer bem' e passa a ser 'fazer outros fazerem bem'. Isso exige habilidades que não são automaticamente desenvolvidas na carreira técnica: feedback, negociação de prioridades, gestão de emoções, construção de critérios e desenvolvimento de autonomia. Muitos técnicos excelentes entram no novo papel tentando continuar sendo os melhores executores. Revisam tudo, centralizam decisões, entram no detalhe e viram gargalo. Não porque querem controlar, mas porque essa foi a forma de gerar valor até aqui. A empresa também erra ao não oferecer alternativas Outro problema é estrutural: poucas empresas criam trilhas de carreira que valorizem profundidade técnica sem obrigar a pessoa a virar gestora para crescer. Quando a única forma de reconhecimento é liderar pessoas, a promoção vira migração forçada. O resultado é previsível. Pessoas que não gostam de liderar se sentem presas. Pessoas que gostam, mas não foram treinadas, se perdem. A empresa chama isso de 'falta de perfil'. Muitas vezes é falta de desenho. O custo cultural de um líder técnico despreparado Quando um líder não consegue liderar, o time sente rápido. Falta clareza, faltam critérios, faltam conversas de padrão. O ambiente vira controle ou abandono. Ou o líder microgerencia, ou some. Em ambos os casos, a autonomia cai. Além disso, cresce a política. Se a decisão depende do humor ou do detalhe técnico do gestor, as pessoas param de decidir. Passam a negociar espaço e evitar exposição. O clima fica mais pesado e a performance coletiva cai. Como promover sem quebrar a pessoa e o time O primeiro passo é separar desempenho técnico de potencial de liderança. Antes de promover, vale testar o comportamento de liderança em pequena escala: mentoria, condução de projeto, facilitação de reuniões, gestão de conflitos pontuais. O segundo passo é definir o novo critério de sucesso explicitamente. O que significa ir bem no cargo? Tempo de resposta do time? Qualidade das entregas coletivas? Retenção? Desenvolvimento? Sem isso, a pessoa tenta vencer pela métrica antiga: fazer tudo sozinha. O terceiro passo é oferecer suporte real nos primeiros meses. Treinamento, acompanhamento, feedback e espaço para ajustar. Liderança não nasce no dia da promoção. Ela se constrói na transição. A alternativa mais inteligente: dupla trilha Empresas maduras criam caminho para crescimento técnico sem gestão de pessoas. Assim, quem lidera escolhe liderar, não é empurrado. E quem é técnico excelente continua sendo valorizado pelo que faz de melhor. Pergunta útil para qualquer organização: estamos promovendo competência ou estamos premiando entrega com um cargo diferente? Se for a segunda, o risco é alto. No fim, promover o melhor técnico pode ser uma ótima decisão, desde que a empresa entenda o que está mudando. Liderança não é upgrade automático. É mudança de função. E, quando a organização respeita essa mudança, ela não perde o técnico nem sacrifica o time. Ela ganha um líder de verdade.