Alinhamento sem dono gera conforto. Dono com critério gera resultado Alinhar virou verbo nobre nas empresas. Alinhar expectativa, alinhar estratégia, alinhar prioridades. O problema começa quando alinhar passa a substituir decidir. Tudo é discutido, revisitado, reexplicado, mas ninguém assume a responsabilidade final. O trabalho parece cuidadoso, mas o avanço é lento. E, no fundo, o excesso de alinhamento está escondendo um vazio perigoso: falta de dono. Organizações com responsabilidade difusa tendem a ter mais retrabalho e menos execução consistente, porque decisões sem autoria clara se dissolvem ao longo do tempo. Alinhamento sem responsabilidade gera conforto social, não resultado. Quando todo mundo opina e ninguém responde Ambientes muito 'alinhados' costumam ter muitas vozes e poucos donos. As decisões passam por comitês, reuniões e consensos parciais, mas não têm alguém claramente responsável por sustentar o caminho escolhido. Quando algo dá errado, a pergunta surge: quem decidiu isso? E a resposta é vaga: 'foi alinhado'. Esse vácuo cria dois efeitos ruins. O primeiro é a lentidão. Como ninguém decide sozinho, tudo precisa ser validado de novo. O segundo é a defensiva. Como ninguém é dono, todo mundo se protege. A execução perde coragem. Alinhamento excessivo vira escudo emocional Em muitos casos, alinhar demais é uma forma elegante de evitar risco. Decidir expõe. Alinhar dilui. Quando algo é 'do grupo', ninguém se sente totalmente responsável. Isso reduz ansiedade individual, mas aumenta o custo coletivo. Esse comportamento costuma aparecer em ambientes onde erro é punido ou onde a liderança reage mal a decisões impopulares. O time aprende que é mais seguro alinhar indefinidamente do que escolher e sustentar. O impacto direto na execução Sem responsabilidade clara, a execução fica frouxa. Prazos escorregam, prioridades competem e ajustes demoram. Ninguém se sente autorizado a dizer 'vamos por aqui' ou 'isso não é prioridade agora'. Com o tempo, o time passa a confundir alinhamento com reunião. Quanto mais conversa, menos ação. E a empresa começa a trabalhar muito para decidir pouco. Alinhar é entender juntos, não decidir juntos Alinhamento saudável garante entendimento comum do problema, dos critérios e dos trade-offs. Responsabilidade garante que alguém escolha e sustente a decisão. Confundir os dois é um erro de desenho organizacional. Equipes maduras sabem separar: debate é coletivo, decisão tem dono. O dono ouve, pondera e decide. E o grupo respeita, mesmo discordando. Como devolver responsabilidade sem perder colaboração O primeiro passo é sempre nomear o responsável final. Não é o executor, é quem responde pelo resultado. Essa clareza muda o comportamento imediatamente. O segundo passo é explicitar o critério de decisão. Quando o critério é conhecido, o dono não decide 'do nada'. Ele aplica lógica. Isso reduz sensação de arbitrariedade. O terceiro passo é fechar a conversa com compromisso, não com consenso. 'Decidimos X e seguimos assim até tal data.' Sem essa frase, o alinhamento fica suspenso. O papel da liderança em cortar o excesso de alinhamento Líderes precisam observar quando o alinhamento está virando fuga. Reuniões longas, revisitas constantes e dificuldade de fechar são sinais claros. Nesses momentos, liderar é dizer: já ouvimos o suficiente, agora vamos escolher. Uma pergunta simples ajuda: se ninguém mais falar sobre isso, alguém sabe o que fazer amanhã? Se a resposta for não, o problema não é falta de alinhamento. É falta de responsabilidade. No fim, alinhar é importante. Mas responsabilidade é indispensável. Empresas que performam bem não são as que conversam mais. São as que sabem quando parar de conversar e assumir um caminho. Porque alinhamento sem dono gera conforto. Dono com critério gera resultado.