Contribuir com o outro não é apenas um ato social ou moral. Pode ser também uma estratégia eficaz para preservar a saúde cognitiva Durante anos, a ciência tem apontado caminhos individuais para desacelerar o envelhecimento do cérebro. Mais atividade física, dieta mediterrânea, cursos ao longo da vida e hobbies criativos aparecem com frequência como recomendações para preservar memória, atenção e raciocínio com o passar dos anos. Mas novas evidências sugerem que um dos hábitos mais poderosos para proteger o cérebro pode não estar focado em si mesmo, e sim nos outros. Um estudo recente que acompanhou cerca de 30 mil adultos com mais de 50 anos ao longo de duas décadas indica que o voluntariado está associado a um declínio cognitivo significativamente mais lento. A pesquisa foi conduzida pelo cientista social Sae Hwang Han, da Universidade do Texas em Austin, a partir de dados do Health and Retirement Study, um dos maiores levantamentos longitudinais sobre envelhecimento nos Estados Unidos. Os resultados são claros: pessoas que dedicaram entre duas e quatro horas por semana a atividades voluntárias fora de casa apresentaram uma redução de 15% a 20% no ritmo de declínio cognitivo. O efeito foi observado tanto em voluntariado formal, como participação regular em organizações, quanto em ajudas informais, como apoiar vizinhos, amigos ou familiares. Segundo Han, o mais relevante não foi apenas a existência do benefício, mas sua persistência ao longo do tempo. Os ganhos cognitivos não se limitaram a um efeito pontual após uma atividade específica, mas se acumularam com o engajamento contínuo. Além disso, o impacto positivo apareceu independentemente do formato do apoio prestado, o que amplia o alcance prático da descoberta. Esse não é um achado isolado. Um estudo publicado em 2023 por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis já havia identificado associação entre voluntariado na vida adulta e melhor desempenho cognitivo, especialmente em memória e funções executivas. Em 2025, uma equipe da Universidade de Washington observou que mesmo uma hora semanal de voluntariado estava ligada a um envelhecimento biológico mais lento de forma geral. As explicações para esse efeito passam por fatores bem documentados na literatura científica. A interação social frequente é um dos principais protetores contra o declínio cognitivo, assim como a sensação de propósito e utilidade. O voluntariado reúne esses dois elementos de forma natural, ao mesmo tempo em que oferece estímulos mentais e, muitas vezes, físicos. Há, no entanto, um ponto de atenção. Alguns estudos indicam que níveis muito elevados de engajamento voluntário podem estar associados a piores desfechos de saúde em pessoas mais velhas, possivelmente por excesso de compromissos e desgaste físico. O benefício parece estar no equilíbrio, e não na sobrecarga. A relevância do tema dialoga com uma questão mais ampla do envelhecimento contemporâneo: como manter propósito e engajamento ao longo da vida. Em reflexão recente, Bill Gates levantou uma pergunta simples e profunda: o que pode ajudar pessoas mais velhas a terem um motivo para levantar da cama todos os dias? A ciência começa a apontar uma resposta concreta. Reservar algumas horas semanais para ajudar alguém pode fortalecer comunidades, ampliar vínculos sociais e, ao mesmo tempo, proteger o cérebro contra os efeitos do tempo. Não é necessário aderir a programas complexos ou instituições formais. Pequenos gestos, como cuidar do animal de estimação de um vizinho, apoiar alguém em recuperação, participar de uma ação comunitária ou organizar iniciativas solidárias no ambiente de trabalho, já parecem suficientes para gerar impacto. Em um contexto de envelhecimento acelerado da população, o estudo reforça uma ideia simples e poderosa: contribuir com o outro não é apenas um ato social ou moral. Pode ser também uma estratégia eficaz para preservar a saúde cognitiva e viver melhor por mais tempo.