O pico matinal de cortisol ajuda o corpo a despertar, mobilizar energia e preparar o cérebro para decisões, aprendizado e ação Andrew Huberman construiu uma reputação rara no mundo da ciência: a de traduzir neurociência de ponta em hábitos práticos, aplicáveis à vida cotidiana. Professor de neurobiologia e oftalmologia em Stanford, ele transformou esse conhecimento em um fenômeno cultural por meio do podcast Huberman Lab, no qual aborda sono, foco, saúde mental e desempenho com base em evidências científicas. Um dos pilares centrais de suas recomendações é um hormônio frequentemente mal interpretado: o cortisol. Longe de tratá-lo como um vilão a ser eliminado, Huberman o descreve como um regulador essencial de energia e alerta quando usado no timing correto. Em entrevista recente à GQ, ele foi direto: níveis intencionalmente altos de cortisol pela manhã e baixos à noite são fundamentais para alinhar saúde física e mental. A lógica é fisiológica. O pico matinal de cortisol ajuda o corpo a despertar, mobilizar energia e preparar o cérebro para decisões, aprendizado e ação. Segundo Huberman, os níveis desse hormônio deveriam ser até 30 vezes mais altos pela manhã do que à noite. O principal gatilho para esse ajuste não é café nem força de vontade, mas luz. Logo após acordar, a exposição à luz natural dentro da primeira hora do dia é, segundo ele, a forma mais confiável de 'ancorar' o ritmo circadiano. A luz solar sinaliza ao cérebro que o dia começou, ajustando a liberação hormonal ao longo das próximas horas. Quando a luz natural não está disponível, Huberman recomenda o uso de caixas de luz de 10 mil lux ou, no mínimo, ambientes bem iluminados. Manhãs escuras e noites excessivamente claras, ele alerta, são um dos piores cenários possíveis para o cérebro. Esse raciocínio encontra respaldo fora do universo do podcast. Mariana Figueiro, diretora do Light and Health Research Center da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, já afirmou que a luz do dia é tão importante quanto dieta e exercício. Segundo ela, a vantagem da luz natural está no equilíbrio ideal entre intensidade, cor e horário de exposição, algo difícil de replicar artificialmente. Se a luz é o principal gatilho, o movimento é o amplificador. Huberman defende a prática de atividade física logo pela manhã como outra forma eficaz de estimular cortisol e adrenalina. Não se trata, necessariamente, de treinos longos ou intensos. Movimentos simples como agachamentos, balanços de braço ou polichinelos já são suficientes para enviar ao corpo o sinal de ativação. À noite, a estratégia se inverte. O objetivo passa a ser reduzir estímulos que mantenham o cérebro em estado de alerta. Luzes mais baixas, evitar cafeína e, quando possível, o uso de óculos que bloqueiam luz azul ajudam a impedir que o sistema nervoso interprete o ambiente como 'horário de ação'. Esse declínio gradual do cortisol é o que permite um sono mais profundo e restaurador. A alimentação também entra nesse desenho, mas de forma menos dogmática. Huberman prevê uma mudança de foco: menos obsessão com macronutrientes e mais atenção aos micronutrientes, como cálcio e magnésio. Ele também aponta o crescimento do interesse por alimentos fermentados com baixo teor de açúcar, como kimchi, chucrute e natto. Essa visão dialoga com pesquisas conduzidas pelos microbiologistas Justin e Erica Sonnenburg, de Stanford, que demonstram como o consumo de alimentos fermentados pode reduzir inflamação e fortalecer o microbioma intestinal, com impactos diretos na saúde cerebral. No fim, a proposta de Huberman não gira em torno de hacks extremos ou rotinas extenuantes. O que ele sugere é algo mais sutil — e talvez mais difícil: respeitar os sinais biológicos básicos do corpo. Luz pela manhã, escuridão à noite, algum movimento diário e alimentação que sustente o sistema nervoso. Pequenos ajustes que, somados, criam previsibilidade fisiológica. E previsibilidade, para o cérebro, é sinônimo de energia, foco e equilíbrio.