Como esta pequena empresa familiar conseguiu se infiltrar na maior vitrine esportiva do mundo

Imagem: Divulgação/Capelli Sport
Criada por uma família de imigrantes, marca encontrou espaço deixado pelas gigantes do esporte, vestiu a seleção-sensação do Mundial e já garantiu presença nos Jogos Olímpicos de Los Angeles
Quando George Altirs acompanhou a Copa de 2022 como torcedor, levou para uma conversa com o executivo Brian Remedi uma pergunta ambiciosa: como colocar a Capelli Sport dentro do maior torneio de futebol do planeta? Quatro anos depois, a marca fundada por ele e pela esposa, Liz Altirs, não apenas chegou ao Mundial como apareceu no uniforme de uma das maiores surpresas da competição: Cabo Verde.
A trajetória da empresa, porém, começou longe dos grandes estádios. Nascido no Líbano, George mudou-se para os Estados Unidos no fim dos anos 1980. Pouco depois, fundou com o irmão, Masoud “Mike” Altirs, a GMA Accessories. Operando inicialmente no porão da família, no Brooklyn, os dois produziam acessórios para cabelo sob o nome Capelli New York.
O negócio cresceu e se transformou em um grupo internacional de moda e manufatura. A entrada no esporte aconteceu anos depois, por uma necessidade familiar. Quando um dos filhos de George começou a jogar no Cedar Stars, clube de formação de atletas, a equipe não encontrou uniformes com as cores desejadas. George pediu que Liz criasse alguns modelos, e as primeiras peças foram fabricadas para apenas 24 jogadores.
A experiência revelou uma oportunidade. A família já dominava áreas como design, compras, produção, logística e cadeia de suprimentos. Em 2011, lançou oficialmente a Capelli Sport, inicialmente como uma divisão da GMA Group. Liz assumiu a direção criativa, enquanto George conduziu a expansão comercial.
O espaço que as gigantes deixaram
Entrar em uma Copa parecia difícil porque Adidas, Nike e Puma dominam os contratos das principais seleções. As três marcas vestem cerca de três quartos das equipes do Mundial e mantêm acordos duradouros com federações que movimentam grandes audiências e vendas de camisas.
A Capelli decidiu procurar onde as gigantes demonstravam menos interesse: federações menores, com potencial esportivo, mas frequentemente negligenciadas pelos grandes fornecedores. A proposta era oferecer atenção personalizada, rapidez e uma parceria mais próxima do que uma empresa global conseguiria entregar.
O primeiro grande avanço veio com um contrato para vestir as seleções masculina, feminina e de base da Sérvia. A equipe masculina, contudo, não conseguiu se classificar para a Copa de 2026. A empresa então passou a analisar países menos conhecidos que haviam garantido presença no torneio. Cabo Verde surgiu como a oportunidade ideal.
O acordo plurianual foi concluído em 2025. A agilidade virou uma vantagem competitiva: graças à produção verticalizada e às fábricas próprias na China e em Bangladesh, a Capelli desenvolveu o conceito dos uniformes cabo-verdianos em apenas uma semana.
As camisas ganharam versões em azul, branco e vermelho, com formas geométricas inspiradas nos ventos, nas correntes marítimas e nas rotas que conectam as dez ilhas de Cabo Verde à sua diáspora. Para o aquecimento, a empresa produziu peças com bocas de tubarão, referência ao apelido da seleção, os Tubarões Azuis. Cerca de 100 profissionais participaram do projeto, que acabou incluído entre os melhores uniformes da Copa.
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Uma aposta que superou todas as expectativas
Se a simples participação de Cabo Verde já daria à Capelli uma exposição inédita, o desempenho da seleção fez a parceria sair melhor que a encomenda. Estreante em Mundiais e representando um país de pouco mais de 500 mil habitantes, a equipe segurou um empate por 0 a 0 contra a Espanha, campeã europeia e uma das favoritas ao título. Em seguida, empatou por 2 a 2 com o Uruguai.
A campanha transformou jogadores em fenômenos internacionais e colocou a Capelli diante de milhões de espectadores. A procura pelas camisas superou as projeções iniciais da empresa, que precisou abrir encomendas de modelos específicos, como o uniforme do goleiro Vozinha.
Assim, Cabo Verde e Capelli passaram a compartilhar a mesma narrativa: dois nomes pequenos diante dos gigantes, mas grandes demais para continuar ignorados. O sucesso também serviu como prova de que a marca poderia desenvolver, produzir e distribuir uniformes para eventos de alcance mundial.
Muito além das camisas de futebol
Atualmente, a Capelli Sport produz uniformes de jogo e treinamento, roupas casuais, calçados, bolas, luvas para goleiros, bolsas, bonés e outros equipamentos. A empresa atua principalmente no futebol e no basquete, mas vem avançando sobre novas modalidades.
A marca já vestiu seleções como Sérvia, Líbano e Trinidad e Tobago, além de clubes como AEK Atenas, MSV Duisburg e HB Køge. Mais de 100 equipes profissionais europeias utilizam seus produtos. O grupo também investiu diretamente em clubes e em programas de identificação e desenvolvimento de jovens atletas.
Fora do esporte, a empresa familiar continua operando por meio da GMA Group, que cria e fabrica produtos licenciados ou de marca própria para empresas de moda e entretenimento. O portfólio inclui trabalhos relacionados a nomes como Kenneth Cole, Rebecca Minkoff, True Religion, Crocs, Disney, Marvel, Lego, Hello Kitty, UFC e Rolling Stones. O grupo emprega aproximadamente 3 mil pessoas e movimenta centenas de milhões de dólares por ano.
Próxima parada: Los Angeles 2028
A projeção obtida com Cabo Verde não será a última aparição da Capelli em um grande evento esportivo. A empresa já assegurou presença nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028, como fornecedora dos uniformes das equipes norte-americanas de lacrosse e hóquei sobre a grama.
Os acordos foram construídos antes da campanha cabo-verdiana, mas ganharam novo peso depois da exposição alcançada na Copa. No hóquei sobre a grama, a parceria vai até 2029 e inclui as seleções masculinas e femininas dos Estados Unidos, além de equipes de base, indoor e masters. No lacrosse, modalidade que retornará ao programa olímpico em um formato com seis jogadores, a Capelli já fornece roupas para as seleções norte-americanas.
A empresa que começou produzindo acessórios em um porão e entrou no esporte para vestir o time de uma criança agora se prepara para aparecer em dois dos maiores eventos do planeta. Para a Capelli, Cabo Verde não foi apenas uma oportunidade de marketing. Foi a demonstração de que, mesmo em um mercado dominado por gigantes, ainda existe espaço para quem consegue enxergar — e atender — os parceiros que os líderes preferem ignorar.









