Desenvolvedor cria plataforma para facilitar consultas a dados eleitorais do TSE

Divulgação/Pedro Stanzani
Pedro Stanzani, de 23 anos, desenvolveu sozinho o Eleições.dev, que organiza informações públicas e permite consultas por API e inteligência artificial
Aos 23 anos, o desenvolvedor Pedro Stanzani, natural de Angra dos Reis (RJ) e hoje morando em São Paulo, encontrou nas eleições de 2026 o ponto de partida para um novo projeto. Enquanto acompanhava conteúdos sobre o período eleitoral nas redes sociais, percebeu que informações sobre o patrimônio declarado pelos candidatos despertava interesse recorrente. Os dados estavam disponíveis publicamente, mas consultá-los, cruzá-los e comparar diferentes eleições ainda exigia navegar por registros individuais ou trabalhar com grandes bases da Justiça Eleitoral.
A inquietação virou código. Sozinho, Stanzani criou em menos de 24 horas a primeira versão do Eleições.dev, plataforma desenvolvida para organizar e facilitar o acesso a dados públicos eleitorais. A ideia surgiu no fim de semana de 9 de agosto e começou com informações das eleições de 2026. Depois, o desenvolvedor incorporou dados patrimoniais de eleições anteriores, desde 2006, tornando possível acompanhar o que candidatos declararam à Justiça Eleitoral ao longo dos anos.
“Queria criar uma forma mais fácil de acessar e visualizar esses dados”, conta. Para o desenvolvedor, o desafio não estava na ausência de informação, mas na maneira como ela precisava ser localizada e trabalhada. Dados sobre candidaturas, bens declarados e resultados já são públicos, mas muitas consultas exigem baixar arquivos extensos ou pesquisar candidato por candidato.
O Eleições.dev nasceu como projeto pessoal e experimento tecnológico, sem equipe além do próprio Stanzani. A proposta, porém, não ficou restrita a um site de consulta. Interessado em developer tools, ele criou também uma API e integração via MCP, protocolo que permite que assistentes de inteligência artificial acessem os dados diretamente.
Na prática, isso permite que uma pessoa faça perguntas em linguagem natural sobre os dados eleitorais sem precisar saber programar. Uma consulta pode, por exemplo, buscar quais candidatos a determinado cargo apresentaram mudanças no patrimônio declarado entre diferentes eleições. A mesma infraestrutura também pode ser utilizada por outros desenvolvedores para criar novos produtos a partir dessas informações.
“Se os dados estiverem organizados e acessíveis por API, jornalistas, pesquisadores e outros desenvolvedores podem construir em cima deles.”, afirma.
Entre os usos imaginados por Stanzani estão a identificação de possíveis pautas e a checagem de informações por jornalistas, pesquisas sobre o perfil dos candidatos ao longo de diferentes eleições e o desenvolvimento de comparadores, bots e painéis regionais. Desde o lançamento, em agosto, o Eleições.dev já recebeu mais de 50 mil consultas pela API e pelo MCP, segundo o desenvolvedor. O público é formado principalmente por desenvolvedores, designers e pessoas que utilizam assistentes de IA para pesquisar dados eleitorais.
O investimento financeiro para colocar a plataforma no ar foi pequeno. Até agora, Stanzani afirma ter dedicado principalmente o próprio tempo ao projeto. A velocidade de desenvolvimento também está relacionada, segundo ele, ao avanço de ferramentas de inteligência artificial e coding agents, que reduziram o tempo necessário para construir projetos desse tipo.
A plataforma não produz nem audita as informações. Os dados são organizados a partir das bases oficiais do Tribunal Superior Eleitoral, como o site oficial de Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais e o Portal de Dados Abertos, e atualizados a partir dessas fontes. No caso do patrimônio, Stanzani ressalta que o site apresenta aquilo que foi declarado pelos próprios candidatos à Justiça Eleitoral, sem fazer interpretação sobre os valores.
“O site mostra o que foi declarado, não faz acusação nem interpretação. Num ambiente de muita desinformação, acho que o papel da tecnologia é esse: facilitar o acesso à fonte original, e não criar mais uma versão da história”, diz.
Da programação no colégio ao desenvolvimento de produtos
A nova plataforma é resultado de uma relação com programação iniciada ainda no ensino médio. Até o terceiro ano do colégio, Stanzani imaginava que cursaria Direito. O contato com Python mudou seus planos e levou aos primeiros projetos pessoais, entre eles um bot desenvolvido para monitorar preços de produtos em sites de comércio eletrônico.
Atualmente no último semestre de Engenharia da Computação no Insper, ele trabalha como engenheiro de software na Tako, startup de inteligência artificial para recursos humanos. Antes, passou duas vezes pelo BTG Pactual, nas áreas de ciência de dados e engenharia de software, trabalhou na startup Gandaya e fez intercâmbio acadêmico na University of California, Berkeley. Na Tako, integrou o grupo de três engenheiros responsável pela construção da Nara, recrutadora baseada em inteligência artificial de voz.
No Eleições.dev, essa experiência técnica ganhou uma aplicação diretamente ligada ao acesso à informação pública. Ao estruturar dados eleitorais para consultas mais simples e também para uso por ferramentas de inteligência artificial, Stanzani busca reduzir a distância entre as bases oficiais e quem precisa analisá-las, seja um eleitor, jornalista, pesquisador ou desenvolvedor. O projeto, segundo ele, nasceu justamente com a proposta de dar acesso simples e transparente a dados públicos, tanto para pessoas quanto para agentes de IA.
“Tecnologia pode tornar a política mais transparente sem precisar de nenhuma informação nova, só deixando mais fácil acessar o que já existe”, completa Stanzani.









