Quando funcionários se sentem protegidos e apoiados, eles permanecem mais tempo, se engajam mais e investem energia no trabalho de longo prazo O mercado de trabalho em 2026 começa cercado de incertezas. Salários que não acompanham o custo de vida, adoção acelerada de inteligência artificial, demissões pontuais e um ambiente econômico instável formam o pano de fundo para quem pensa em trocar de emprego. Mas um novo levantamento sugere que o fator decisivo para a satisfação profissional pode estar menos no contracheque e mais na experiência cotidiana do trabalho — e isso varia bastante de acordo com o lugar onde se vive. Um estudo recém-divulgado pela empresa de publicidade Excite OOH analisou como diferentes estados norte-americanos moldam, em média, a cultura de trabalho. Para isso, cruzou dados sobre salários, oferta de férias remuneradas, licenças médicas, proteções trabalhistas, tempo médio de deslocamento, benefícios corporativos e taxas de rotatividade. O resultado é claro: ambientes com mais proteção ao trabalhador e acesso real ao descanso tendem a oferecer culturas organizacionais melhores, mesmo quando os salários não são os mais altos do país. Férias, proteção e estabilidade pesam mais do que o salário De acordo com a análise, os estados mais bem colocados no ranking de cultura de trabalho oferecem até três dias a mais de férias remuneradas em comparação com os piores colocados. Nova York, Washington e Califórnia lideram a lista, combinando salários médios elevados, benefícios mais amplos e legislações que fortalecem direitos trabalhistas, mesmo enfrentando desafios como longos deslocamentos urbanos. Nova York, que ocupa o topo do ranking, apresenta números expressivos: é o segundo estado com maior salário médio anual, acima de US$ 78 mil, tem uma das menores cargas semanais de trabalho (37,8 horas) e registra uma das taxas de pedido de demissão mais baixas do país. Cerca de 90% dos trabalhadores relatam acesso a licença médica remunerada, além de o estado liderar indicadores de proteção ao direito de organização sindical e segurança salarial. Segundo Elliot Ward, porta-voz da Excite, os dados reforçam que cultura de trabalho vai muito além da remuneração. Estados que protegem direitos, oferecem tempo de descanso e sustentam algum grau de flexibilidade criam ambientes mais saudáveis, mesmo quando não lideram o ranking de salários. Um contraste curioso com os movimentos de migração O estudo da Excite, no entanto, contrasta com outro levantamento recente bastante citado: o ranking anual de migração da U-Haul, que aponta Texas e Flórida como os estados mais procurados para mudança em 2025, seguidos por Carolina do Norte, Tennessee e Carolina do Sul. Na outra ponta, Califórnia e Nova York aparecem entre os estados com maior saída líquida de moradores. À primeira vista, os dados parecem contraditórios. Se a cultura de trabalho é melhor em estados com mais proteções, por que tantos profissionais estão se mudando para estados que oferecem menos garantias trabalhistas? A resposta parece estar em um detalhe revelador do estudo da Excite: estados com melhor cultura apresentam menores taxas de desligamento voluntário. Em outras palavras, quando as pessoas estão satisfeitas no trabalho, tendem a permanecer onde estão. Já os estados que atraem mais migrantes costumam concentrar profissionais em busca de oportunidades ou tentando escapar de ambientes de trabalho menos estáveis — um fenômeno alinhado à tendência recente conhecida como job hugging, em que trabalhadores evitam trocar de emprego quando se sentem protegidos. O que isso ensina às empresas O principal recado do levantamento não é geográfico, mas estratégico. Em um mercado marcado por insegurança e competição por talentos, cultura organizacional deixou de ser discurso e virou fator concreto de retenção. Benefícios reais, políticas claras de proteção ao trabalhador, descanso remunerado e previsibilidade importam tanto quanto — ou mais do que — aumentos salariais. Como resume Ward, quando funcionários se sentem protegidos e apoiados, eles permanecem mais tempo, se engajam mais e investem energia no trabalho de longo prazo. Em um cenário em que contratar custa caro e perder talentos custa ainda mais, investir em cultura não é um luxo. É uma decisão econômica.