Já cobri dezenas de eventos de negócios, tecnologia e liderança ao longo das últimas duas décadas. Fóruns, feiras, convenções, congressos, lançamentos. Mas, sentado na cerimônia de abertura do Senior Experience 2026, em São Paulo, me peguei numa reflexão que nunca fiz em nenhum outro antes. Enquanto os palestrantes falavam sobre inteligência artificial, produtividade e transformação dos negócios, eu fazia exatamente o que vários outros jornalistas faziam ao meu lado: gravava tudo no celular. Horas depois, aquele áudio seria transcrito por uma IA. O texto-base seria organizado com ajuda de agentes redatores. Eu faria minha revisão humana. Em seguida, devolveria o conteúdo para outra IA revisar estrutura, fluidez e gramática. Por fim, publicaria tudo com ajuda de um assistente publicador automatizado. Em algum momento daquele fluxo, uma pergunta começou a martelar na cabeça: estaríamos nós nos transformando apenas em intermediários? Ferramentas humanas operando o trabalho de quem realmente coloca a mão na massa: as próprias IAs? Essa sensação, quase desconfortável, foi apenas uma das inúmeras reflexões provocadas ao longo do evento promovido pela Senior Sistemas no Transamerica Expo Center, em São Paulo, neste dia 21 de maio de 2026. Preparando o futuro, que já começou A segunda edição do Senior Experience reuniu milhares de participantes para discutir justamente os impactos da inteligência artificial sobre trabalho, produtividade, liderança, criação de negócios e transformação de setores tradicionais da economia. No palco, executivos, pesquisadores, empreendedores e especialistas debateram como a IA está mudando carreiras inteiras, acelerando a produtividade das empresas e criando novas oportunidades de negócio em praticamente todos os segmentos. Até áreas historicamente tradicionais, como o agro, apareceram como protagonistas da transformação digital. Um dos painéis discutiu justamente 'Quando o agro encontra a IA', abordando como dados e automação estão mudando a gestão no campo. Segurança e responsabilidade em foco Ao mesmo tempo em que o entusiasmo dominava parte das discussões, havia uma preocupação constante atravessando praticamente todas as palestras: como garantir uso seguro, estratégico e responsável da inteligência artificial dentro das empresas? Foi nesse contexto que Carlênio Castelo Branco, CEO da Senior, defendeu uma visão que apareceu repetidamente durante o evento: a IA não deve ser combatida ou limitada pelos líderes, mas estimulada. Segundo ele, cabe às lideranças incentivar o uso da tecnologia pelas equipes. Já o papel das empresas é criar estruturas seguras para que isso aconteça sem comprometer dados, governança ou estratégia. Compreendendo os níveis de adoção da IA Ao falar sobre maturidade empresarial no uso da IA, Carlênio apresentou uma visão dividida em três níveis de adoção. O primeiro seria o individual, quando profissionais utilizam IA para acelerar tarefas do dia a dia, gerar textos, organizar ideias ou automatizar pequenas atividades. O segundo estágio seria o coletivo, quando equipes passam a utilizar inteligência artificial de maneira integrada para aumentar produtividade, colaboração e execução operacional. Já o terceiro nível, considerado o mais avançado, seria o estratégico: quando a IA deixa de ser apenas ferramenta de apoio e passa a ser embarcada diretamente na operação das empresas, ajudando líderes a tomar decisões mais rápidas, inteligentes e baseadas em dados. A discussão apareceu em diversos painéis do evento. Palestras como 'Como se tornar insubstituível na era da IA', com Leandro Karnal e Gabriela Prioli, ou 'Governança na era da IA', reforçaram que a transformação tecnológica já deixou de ser tendência futura para se tornar realidade operacional imediata. O evento também reuniu nomes como Guga Kuerten, Walter Longo e o astronauta Donald A. Thomas, além de lideranças ligadas a empresas como Magalu, iFood, MIT Technology Review, Gartner e Havaianas. Mais perguntas do que respostas Ao final do dia, talvez o principal mérito do Senior Experience tenha sido justamente esse: menos responder perguntas definitivas sobre inteligência artificial e mais provocar inquietações reais sobre o futuro do trabalho, da liderança e das relações humanas com a tecnologia. Num momento em que praticamente toda empresa busca entender como usar IA, o evento consolidou sua relevância ao reunir diferentes visões sobre o tema num ambiente que misturou tecnologia, negócios, carreira e transformação cultural. Com cerca de duas mil pessoas presentes nesta edição, o Senior Experience se firma como um dos principais fóruns brasileiros para discutir os impactos concretos da inteligência artificial sobre o mercado e a sociedade.