IA, engajamento e gestão de pessoas impulsionam a demanda por palestras sobre liderança

Imagem: Divulgação/PSA Palestras
Avanços tecnológicos aumentam a pressão sobre gestores, enquanto empresas buscam conteúdos que ajudem líderes a conduzir equipes em cenários de mudança
À medida que empresas enfrentam uma combinação de desafios que passam pela adoção da inteligência artificial, pelo engajamento das equipes e pela necessidade de desenvolver gestores preparados para ambientes de trabalho em transformação, palestras sobre liderança voltaram a ganhar espaço na agenda de eventos corporativos.
No Brasil, 32% dos trabalhadores estavam engajados com o trabalho em 2025, segundo a edição de 2026 do relatório State of the Global Workplace, da Gallup. O índice representa uma queda de dois pontos percentuais em relação à média móvel de três anos anterior, embora ainda esteja acima das médias da América Latina e Caribe, de 30%, e global, de 20%.
Para Márcio Spagnolo, fundador da PSA Palestras, agência com a maior plataforma de palestrantes do Brasil, a liderança deixou de ser discutida apenas como uma competência de gestão. “Hoje, as empresas precisam preparar seus líderes para lidar simultaneamente com tecnologia, mudanças de comportamento, pressão por resultados e desenvolvimento de pessoas. Isso naturalmente aparece na escolha dos temas para eventos corporativos.”
O gestor no centro do engajamento
A relação entre liderança e engajamento é um dos principais motivos para o tema ganhar relevância. Segundo a Gallup, o gestor ou líder de uma equipe responde por cerca de 70% da variação no engajamento dentro dela. A pesquisa também aponta que o engajamento dos gestores vem enfrentando dificuldades, em um momento no qual as empresas dependem deles para manter as equipes conectadas ao trabalho.
O desafio não está apenas em manter os profissionais motivados. Gestores também precisam lidar com mudanças nas expectativas sobre carreira, modelos de trabalho, desenvolvimento profissional e relação entre empresas e colaboradores.
Nesse contexto, palestras sobre liderança podem funcionar como parte de iniciativas mais amplas de desenvolvimento de gestores. O objetivo deixa de ser apenas inspirar as equipes durante um evento e passa a envolver discussões sobre comportamentos, tomada de decisão, comunicação, cultura e capacidade de conduzir pessoas em períodos de transformação.
“Quando uma empresa escolhe uma palestra de liderança, muitas vezes está tentando responder a uma questão maior: como preparar as pessoas que estão entre a estratégia da companhia e a execução no dia a dia. É aí que temas como comunicação, cultura, gestão de pessoas e tomada de decisão ganham força”, afirma Márcio.
A relevância do tema também aparece quando se observa o preparo dos próprios gestores. O relatório Global Human Capital Trends 2025, da Deloitte, ouviu quase 13 mil líderes empresariais e de recursos humanos em 93 países e mostra que 73% das organizações reconhecem a necessidade de reinventar o papel do gestor. Apenas 7% afirmam estar avançando significativamente nessa transformação.
Para a Deloitte, a mudança está relacionada, entre outros fatores, à evolução da inteligência artificial e à necessidade de fazer com que os gestores dediquem mais tempo ao desenvolvimento das pessoas, ao redesenho do trabalho e à resolução de problemas estratégicos.
A inteligência artificial muda o papel do líder
A expansão da inteligência artificial acrescentou uma nova camada ao debate sobre liderança. Se, em um primeiro momento, as discussões corporativas sobre IA estavam concentradas nas ferramentas e nas possibilidades de automação, o foco começa a avançar para os impactos da tecnologia sobre pessoas, equipes e modelos de trabalho.
O levantamento mostra que 54% dos trabalhadores e líderes estão preocupados com a perda de clareza sobre quais atividades são realizadas por pessoas e quais passam a ser realizadas por tecnologias. Ao mesmo tempo, 74% dos trabalhadores, gestores e executivos consideram muito importante ou criticamente importante priorizar capacidades humanas.
A mudança coloca os gestores diante de uma questão que vai além da adoção de ferramentas. Cabe a eles decidir como novas tecnologias serão incorporadas às equipes, quais atividades podem ser automatizadas, quais competências precisam ser desenvolvidas e como preservar colaboração e confiança durante o processo.
É nesse ponto que inteligência artificial e liderança começam a aparecer juntas na agenda corporativa. Em vez de substituir os temas tradicionais de gestão, a tecnologia amplia a necessidade de discutir como líderes conduzem pessoas durante processos de transformação. Comunicação, adaptabilidade, visão estratégica, capacidade de aprendizado e inteligência emocional passam a dividir espaço com conhecimentos técnicos sobre as próprias ferramentas de IA.
“A inteligência artificial mudou a conversa sobre liderança. A empresa não precisa apenas de pessoas que saibam usar uma ferramenta, mas de líderes capazes de decidir onde a tecnologia faz sentido, preparar suas equipes para essa mudança e preservar aquilo que continua sendo essencialmente humano”, complementa Márcio.
Desenvolvimento de pessoas ganha espaço
A transformação do papel do gestor também aumenta a importância da gestão de pessoas. De acordo com a Deloitte, dois terços dos gestores e executivos entrevistados afirmam que a maioria das contratações mais recentes não está completamente preparada para suas funções, sendo a falta de experiência apontada como a principal lacuna.
“Com a redução de algumas funções tradicionais de entrada e a transformação acelerada das atividades, empresas precisam encontrar novas formas de criar experiências que permitam aos profissionais desenvolver competências. A liderança passa a ter um papel importante nesse processo, especialmente na definição de prioridades, no feedback e na construção de ambientes de aprendizagem”, acrescenta Márcio.
Essa discussão aproxima as palestras de liderança de outros temas que já fazem parte da agenda de eventos corporativos, como carreira, cultura organizacional, desenvolvimento de equipes e futuro do trabalho.
Para as empresas, a escolha do palestrante passa, portanto, a estar relacionada ao desafio que querem discutir com seus times. Em alguns casos, o foco está na preparação de novos gestores; em outros, na integração de lideranças, na mudança cultural ou na necessidade de mobilizar equipes diante de uma transformação.
De inspiração a ferramenta de desenvolvimento
No mercado de eventos corporativos, essa transformação também tem alterado a discussão sobre os conteúdos levados aos palcos. Segundo Spagnolo, as empresas têm buscado especialistas capazes de relacionar conceitos de liderança a situações concretas do ambiente corporativo.
A experiência prática do palestrante passa a ser um dos elementos considerados na escolha. Executivos que lideraram grandes equipes, especialistas em gestão de pessoas e profissionais que acompanham de perto as transformações do mercado conseguem conectar suas experiências aos desafios enfrentados pelos participantes.
É nesse contexto que a trajetória dos palestrantes também se torna parte importante da experiência. Profissionais como Luis Justo, executivo que liderou a Rock World e esteve à frente de projetos como Rock in Rio e The Town, abordam liderança a partir de experiências relacionadas a grandes operações, cultura, gestão e criação de experiências.
Já Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page no Brasil e especialista em carreira e liderança, construiu parte de sua abordagem a partir de milhares de entrevistas, cafés e reuniões com profissionais e executivos. Seus conteúdos relacionam liderança, gestão de pessoas, carreira e desenvolvimento profissional.
As diferentes trajetórias mostram como o tema se desdobrou em abordagens distintas. A liderança pode ser discutida a partir da gestão de grandes projetos, do desenvolvimento de equipes, da carreira, da cultura organizacional ou da transformação dos ambientes de trabalho.
Eventos corporativos acompanham transformação do mercado
O movimento acontece em um momento de expansão do próprio setor de eventos. Segundo o Radar Econômico da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), o consumo no setor de recreação somou R$25,33 bilhões no primeiro bimestre de 2026, maior valor da série histórica iniciada em janeiro de 2019. Em fevereiro, o core business do setor reunia 205.538 vínculos formais, 84,5% acima do registrado em 2019.
O crescimento amplia também a variedade de formatos e objetivos dos eventos corporativos. Convenções, encontros de liderança, kick-offs, reuniões de vendas e programas de desenvolvimento passaram a utilizar palestras não apenas como momentos de inspiração, mas como parte da estratégia de comunicação e desenvolvimento das organizações.
Nesse ambiente, a escolha dos temas acompanha as prioridades das empresas. Inteligência artificial aparece como uma das principais frentes de transformação, enquanto liderança, gestão de pessoas, cultura e carreira ajudam as equipes a lidar com as consequências dessas mudanças.
Para Márcio Spagnolo, a combinação dos temas é justamente o que explica a força da liderança na programação dos eventos. “O que vemos é uma conexão cada vez maior entre os temas. A empresa pode contratar uma palestra sobre inteligência artificial, mas a conversa inevitavelmente chega à liderança, porque alguém precisa conduzir a mudança. Da mesma forma, quando falamos de engajamento ou cultura, estamos falando sobre a capacidade dos líderes de transformar esses conceitos em prática.”
Uma liderança mais preparada para a mudança
A tendência indica que a demanda por conteúdos sobre liderança não está necessariamente ligada a uma volta aos modelos tradicionais de gestão. Pelo contrário: os desafios atuais estão levando as empresas a repensar o que significa liderar.
O gestor precisa compreender novas tecnologias, mas também saber comunicar mudanças. Precisa entregar resultados, mas desenvolver pessoas. Precisa tomar decisões com velocidade, mas construir confiança. E, diante de equipes com diferentes perfis e expectativas, precisa adaptar sua maneira de liderar sem perder clareza sobre os objetivos do negócio.
Esse conjunto de desafios ajuda a explicar por que a liderança permanece como um tema transversal dentro da agenda corporativa. A discussão não está restrita aos profissionais que ocupam cargos de gestão, mas envolve também quem está sendo preparado para assumir essas posições e equipes que precisam atravessar processos de transformação.
“A liderança hoje precisa ser muito mais completa. Não basta saber cobrar resultado. É preciso saber desenvolver pessoas, comunicar uma visão, tomar decisões em cenários de incerteza e criar conexão. Por isso, quando uma empresa procura uma palestra sobre liderança, normalmente está procurando também respostas para os desafios que estão acontecendo dentro da própria organização”, conclui Márcio.









