O executivo que transformou a cultura do iFood em método conta em novo livro por que a IA é a parte que se copia

Foto: Divulgação/Raphael Bozza
Em novo livro, Raphael Bozza, VP de Pessoas do iFood, mostra os bastidores da gestão do unicórnio e revela como princípios organizacionais sólidos sustentam a inovação tecnológica
Em um mercado cheio de promessas sobre transformação digital rápida, o verdadeiro diferencial dos negócios quase nunca está no software. Raphael Bozza, sócio e VP de Pessoas do iFood, resume essa ideia no livro Código Aberto: O Jeito iFood de Trabalhar, da Editora Gente. Enquanto as ferramentas de inteligência artificial viram rotina para qualquer concorrente, a capacidade de tomar decisões difíceis sob pressão continua sendo exclusiva das pessoas.
A obra reúne os bastidores, os erros e os acertos que fizeram a empresa saltar de dez para 8 mil colaboradores. Hoje, a operação responde por cerca de 0,64% do PIB brasileiro, segundo pesquisa da Fipe. Com carreira construída em áreas de negócios antes de migrar para a gestão de pessoas, Bozza se coloca como um tradutor prático dessa trajetória. O objetivo central é expor o desafio diário de alinhar o discurso à prática, deixando claro que cultura não se copia: ela precisa fazer sentido para cada realidade.
Erros calculados e decisões rápidas
O tom direto da obra aparece logo nas primeiras páginas com uma história marcante de 2021. Na época, a empresa preparava o lançamento da iniciativa “iFood Econômico”. Um foguete inflável gigante foi colocado na entrada do evento semestral de lideranças para simbolizar a aposta.
Pouco antes de o encontro começar, a alta rápida nos juros mostrou que a conta do projeto não fecharia mais. A decisão veio em questão de horas: o plano foi cancelado e o foguete foi esvaziado diante de toda a equipe. O episódio ilustra uma regra básica defendida por Bozza: os valores são inegociáveis, mas os caminhos para alcançá-los devem mudar sempre que necessário.
O livro traz relatos honestos sobre o que quase ninguém conta no mundo dos negócios, como a frustração de equipes inteiras após o encerramento repentino de um projeto. A postura da casa busca ser dura com os problemas, mas sempre cuidadosa com as pessoas. Para o executivo, compartilhar o que deu errado é o único jeito de provar que a cultura real nasce de ações práticas, e não de quadros decorativos na parede.
A nova rotina de trabalho com a inteligência artificial
Essa mesma base cultural permitiu ao iFood acelerar no uso da inteligência artificial. Hoje, o assistente interno atende 91% da equipe, e a empresa viu nascer 27 mil agentes virtuais em apenas dez meses.
Para Bozza, no entanto, essa fase inicial já virou passado. O debate atual foca na estrutura da organização, que deixa o modelo piramidal e passa a funcionar em rede. Nesse formato, profissionais seniores trabalham sem subordinados diretos, mas utilizam a IA com total autonomia para multiplicar resultados.
Antes de abrir qualquer nova vaga, a pergunta na empresa agora é direta: precisamos contratar ou a IA resolve a tarefa? O executivo alerta que, quando a tecnologia se torna acessível a todos, ela vira commodity. O que realmente sustenta a vantagem competitiva a longo prazo é a força e a coerência da cultura interna









