Estratégia não é algo que se conclui. É algo que se navega. E a linguagem é o principal instrumento dessa navegação Grande parte das discussões estratégicas começa com uma suposição equivocada: se o plano for bom o suficiente, todas as equipes irão executá-lo da mesma forma. Na prática, a realidade organizacional mostra o oposto. Estratégias não falham por falta de inteligência técnica, mas por desconsiderarem pessoas, ambientes e circunstâncias específicas. Na ciência organizacional, essa constatação não é nova. A chamada teoria da contingência, desenvolvida por pesquisadores como Fred Fiedler e amplamente difundida em estudos da Harvard Business School, sustenta que não existe uma única forma correta de liderar, estruturar equipes ou tomar decisões. A eficácia depende do contexto. O que funciona em um cenário pode falhar completamente em outro. Quando essa lógica é aplicada à ativação da estratégia, o impacto é direto. Estratégia não é apenas o que está no slide, mas como ela é comunicada, ajustada e vivida no dia a dia. Contexto define o que significa 'funcionar' A teoria da contingência parte de um princípio simples: liderança eficaz é aquela que se ajusta à situação. Em um momento de crise, decisões centralizadas e rápidas podem ser necessárias. Em ambientes complexos e ambíguos, colaboração e escuta se tornam mais valiosas. O erro comum é buscar uma resposta universal para desafios que são essencialmente distintos. Na prática estratégica, isso significa substituir a pergunta 'qual é o melhor modelo?' por 'qual modelo faz sentido para estas pessoas, neste momento, com este problema?'. Estratégias que ignoram essa pergunta tendem a parecer elegantes no papel e frágeis na execução. Ver todos os stories Isto é um teste 6 hábitos que sabotam seu crescimento O nordestino que ousou fazer o impossível O que está em jogo com a 'PEC da Blindagem' Uma verdade sobre suas assinaturas de streaming que você não vê Linguagem clara reduz ambiguidade Outro ponto central da abordagem contingencial é o papel da linguagem. Palavras moldam a forma como as pessoas interpretam a realidade. Expressões genéricas como 'precisamos de mais alinhamento' ou 'falta accountability' soam familiares, mas raramente orientam ação concreta. Líderes eficazes traduzem conceitos abstratos em situações específicas. Em vez de falar em alinhamento, indicam onde há divergência e qual decisão precisa ser tomada. Em vez de cobrar responsabilidade, deixam claro quem decide o quê e em qual prazo. Pesquisas sobre coordenação organizacional mostram que ambiguidades linguísticas são uma das principais fontes de retrabalho e frustração em equipes de alta performance. Estratégias não colam por serem perfeitas, mas por serem reais Outro erro recorrente é tratar a estratégia como um plano fechado, baseado em premissas estáveis. Ambientes mudam, tecnologias evoluem e prioridades se deslocam. Quando isso acontece, estratégias rígidas perdem credibilidade rapidamente. Abordagens contingenciais sugerem algo diferente: explicitar cenários. Em vez de prometer resultados absolutos, líderes descrevem condições e respostas possíveis. Se determinado fator externo mudar, a organização já sabe qual será o ajuste. Isso transforma a estratégia em um guia vivo, não em um documento estático. Liderar não é mudar de personalidade, é mudar de abordagem A teoria da contingência também desmonta outro mito: o de que líderes precisam ter um estilo único. O que ela propõe é algo mais pragmático. Bons líderes sabem quando direcionar, quando envolver e quando delegar. Não por incoerência, mas por leitura do contexto. Estudos sobre governança decisória indicam que equipes funcionam melhor quando entendem claramente qual é o papel da liderança em cada situação. Essa previsibilidade reduz ansiedade e aumenta confiança, mesmo em cenários de mudança. Flexibilidade é vantagem competitiva Escrever e comunicar estratégia com consciência de contingências não é sinal de fraqueza. É sinal de maturidade. Mostra que a organização entende para onde quer ir, mas também reconhece os limites e as variáveis do caminho. Estratégia não é algo que se conclui. É algo que se navega. E a linguagem é o principal instrumento dessa navegação. Quando líderes escolhem palavras que refletem a realidade, em vez de slogans aspiracionais, criam entendimento compartilhado. É assim que direção vira ação, e ação vira resultado.