Por que empresas perdem velocidade justamente quando começam a crescer? Dois autores encontraram um padrão

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Em “A Mentalidade do Fundador”, Chris Zook e James Allen investigam por que negócios bem-sucedidos ficam mais lentos com o crescimento e quais características ajudam a preservar foco, agilidade e proximidade com o cliente
Crescer deveria deixar uma empresa mais forte. Ela passa a ter mais funcionários, recursos, clientes e experiência. Só que o crescimento também traz reuniões, níveis hierárquicos, processos, controles e decisões cada vez mais distantes de quem está na linha de frente.
A organização ganha escala. E pode perder justamente aquilo que permitiu chegar até ali.
É esse paradoxo que A Mentalidade do Fundador, de Chris Zook e James Allen, investiga.
Publicado em português pela Figurati e disponível na Amazon Brasil, o livro nasceu de uma década de estudos envolvendo empresas de mais de 40 países.
Os autores relacionam a capacidade de sustentar o crescimento a três características: missão insurgente, cabeça de dono e obsessão pela linha de frente.
O crescimento pode criar os problemas que ameaçam a empresa
No início, muitas empresas sabem exatamente por que existem.
Os fundadores conhecem clientes importantes pelo nome. Problemas chegam rapidamente à liderança. Decisões acontecem em poucas conversas. Existe urgência.
Então o negócio cresce.
Novos departamentos aparecem. A estrutura aumenta. Mais pessoas precisam participar das decisões. Processos criados para organizar a companhia começam a consumir parte significativa de sua energia.
A complexidade passa a competir com a velocidade.
Zook e Allen identificam crises previsíveis que podem surgir durante esse processo. Entre elas estão a sobrecarga provocada pelo próprio crescimento, a estagnação e, em situações mais graves, a queda livre. Mesmo empresas aparentemente saudáveis podem enfrentar esses estágios.
Um dos dados mais provocativos apresentados na pesquisa dos autores aponta que, quando empresas não alcançam suas metas de crescimento, em 90% dos casos as causas principais são internas. Distanciamento da linha de frente, excesso de processos e enfraquecimento da responsabilidade individual aparecem entre os problemas identificados.
Isso muda a pergunta estratégica.
Antes de culpar concorrentes, mercado ou tecnologia, talvez a liderança precise observar o que aconteceu dentro da própria organização.
Pensar como fundador não significa ser o fundador
O título pode causar uma interpretação equivocada.
Zook e Allen não defendem que apenas empreendedores originais conseguem preservar o espírito de uma empresa. A proposta é transformar determinados comportamentos associados aos fundadores em características presentes na organização inteira.
A primeira delas é a missão insurgente.
Empresas com essa característica mantêm uma ideia clara sobre o mercado que desejam transformar. Elas não existem apenas para cumprir metas trimestrais. Existe uma causa competitiva que ajuda as pessoas a entender por que aquele negócio precisa vencer.
A segunda característica é a cabeça de dono.
Isso significa tratar recursos, decisões e resultados com responsabilidade. Em vez de simplesmente executar processos, as pessoas precisam compreender as consequências de suas escolhas para o negócio.
Por fim, aparece a obsessão pela linha de frente.
É onde clientes compram, reclamam, desistem e revelam necessidades. Também é onde funcionários descobrem problemas que talvez demorem meses para aparecer em um relatório executivo.
Os autores defendem que essas três características ajudam organizações de diferentes tipos, e não apenas startups, a preservar foco e capacidade de crescimento.
Burocracia demais pode fazer a empresa esquecer o cliente
Processos não são necessariamente ruins.
Quando uma organização cresce, algum nível de padronização se torna indispensável. O problema começa quando o processo deixa de servir ao negócio e o negócio passa a servir ao processo.
Uma decisão simples exige quatro aprovações.
Uma reclamação precisa atravessar departamentos.
Uma oportunidade desaparece enquanto diferentes áreas discutem quem possui autoridade para agir.
A empresa continua funcionando. Mas funciona devagar.
“A mentalidade do fundador” sugere que recuperar agilidade não significa simplesmente eliminar estruturas. O desafio consiste em reconectar decisões com propósito, responsabilidade e realidade operacional.
Escala precisa de disciplina. Mas também precisa de proximidade.
Para líderes, essa reflexão importa porque o crescimento pode esconder sinais de deterioração. Receita maior, equipes maiores e estruturas mais sofisticadas passam uma sensação de evolução enquanto pequenas doses de burocracia reduzem iniciativa e velocidade.
Preservar a mentalidade do fundador, portanto, não significa transformar uma empresa de mil pessoas novamente em uma startup de dez.
Significa impedir que o tamanho destrua aquilo que o tamanho deveria potencializar.









