Co-fundador do Harvard Negotiation Project, professor de Negociação na Harvard University e um dos autores mais lidos do mundo na área de negócios. Esse é William Ury, norte-americano autor do best-seller Como chegar ao sim, o livro que transformou a forma como o mundo entende o que é negociar e que hoje, quase 40 anos depois de sua publicação, se tornou talvez mais atual do que era quando foi lançado. É sobre esse livro, mas também sobre seu trabalho desde os anos 1970, que conversamos com o autor. Confira abaixo a íntegra da entrevista exclusiva concedida por ele ao Administradores.com: Publicado pela primeira vez há quase 40 anos, Como chegar ao sim continua sendo um livro muito atual. Qual o motivo disso, em sua opinião? Acredito que o livro pegou uma onda, ainda em seu início, que eu chamo de “a revolução da negociação”. Essa onda, que agora já se espalhou pelo mundo todo, mudou a maneira como tomamos decisões. Porque nós, enquanto indivíduos, empresas, negócios, até enquanto nações, mudamos a forma de decidir as coisas. Tradicionalmente, há algumas gerações, as decisões eram feitas por pessoas que davam ordens e executadas por pessoas que seguiam as instruções. E agora, graças à revolução do conhecimento, à internet, as pirâmides de poder estão se tornando horizontais. A forma de organização está saindo de uma hierarquia vertical para um modelo que mais se parece com uma rede. E em organizações mais horizontais, em redes, o modelo primário de se tomar decisões é através de negociações. Então, por exemplo, o chefe não dá mais uma ordem, ele negocia. Se você quer que algo seja feito, precisa negociar. Seja com clientes, colegas, superiores, empregados, com todo mundo. O que “Chegando ao sim” fez foi tentar capturar quais são os princípios básicos da negociação em que os dois lados, ou todos os lados, possam chegar em uma solução benéfica para todos, e acredito que é por isso que o livro se mantém atual. Essa onda ainda está atingindo a sociedade e transformando tudo, de negócios a famílias e países. E quais os maiores desafios para a negociação em um mundo mais participativo? Há muitos desafios. Um deles é que, se todos querem participar, precisamos ser criativos, porque isso pode se tornar uma situação complexa, longa. E aí é preciso inventar maneiras eficientes para que mais pessoas possam participar de decisões que lhes afetam. Estamos começando a ver isso. Até na internet, online, você vê decisões sendo tomadas de forma participativa. As pessoas estão começando a responder a essa demanda. Mas eu diria que o maior obstáculo, hoje em dia, em negociações, somos nós mesmos. Nós, enquanto seres humanos. Meu maior oponente em uma negociação é aquela pessoa que vejo quando me olho no espelho todas as manhãs. Isso porque, às vezes, durante negociações e conflitos, acabamos indo contra os nossos próprios interesses de longo prazo. É como o ditado que diz que o discurso que fazemos quando estamos com raiva é aquele do qual mais nos arrependemos durante a vida. Em brigas familiares, todo mundo fica muito emocional e acaba perdendo. Os pais, as mães, as crianças, todos perdem. E você vê o mesmo em negócios, em todos os lugares. Então, para mim, a base de uma negociação de sucesso é a habilidade de se afastar. Você se distancia um pouco da situação, como se a observasse de longe. E assim você mantém o foco no objetivo, no que é mais importante. Você não reage respondendo ao medo ou à raiva, e tenta enxergar qual é a melhor solução. Você percebe o lado das outras pessoas e entende que elas também têm seus argumentos, e assim você também pode ver se há alguma maneira criativa de atender aos interesses de ambos, algo que deixe os dois lados satisfeitos. Quer concorrer a um exemplar de Como chegar ao sim? Inscreva-se na promoção da editora Sextante. Na página você ainda pode baixar um trecho da obra. William, outro aspecto importante numa negociação é o timing. Às vezes, a situação precisa de uma resolução rápida. Em outras, para chegarmos à saída ideal, é preciso calma, ir devagar. Qual o problema de não respeitar isso numa negociação? Para ser rápido, é preciso calma. O que isso significa, essencialmente, é que as pessoas não mudam de opinião de um dia para o outro. Você precisa respeitar isso e saber que construir confiança e lidar com situações difíceis é algo que leva tempo. Mas há casos em que uma negociação pode ser muito rápida. Vou dar um exemplo. Certa vez, o investidor Warren Buffett estava envolvido em uma negociação com um colega chamado Charlie (Munger), e ia investir 5 milhões de dólares para que esse colega comprasse uma emissora de televisão americana, a ABC. Charlie ligou para o Warren e disse: “Parece que o acordo vai dar certo. O que você quer pelos 5 milhões de dólares?”. E ele respondeu: “Charlie, por que você não me diz o que eu deveria receber? O que seria justo aqui?”. Charlie então disse: “Warren, eu confio em você. Por que você não decide?”. E então Warren estabeleceu um valor, uma quantidade de ações. Charlie concordou e esse foi o fim da negociação. Foi uma ligação de no máximo trinta segundos e acabou sendo um acordo muito bom para os dois lados. A ABC depois foi comprada pelo grupo Disney e o lucro foi imenso. Foi uma negociação amigável, eficiente, em pouco tempo. Qual o motivo disso? Foi um acordo eficiente porque Warren e Charlie já tinham construído uma relação de confiança. Como confiavam um no outro, não importava quem iria estabelecer o primeiro valor. Cada lado tinha certeza de que o outro estaria sendo sensato quando fizesse a proposta. Esse exemplo mostra algo que é fundamental na negociação: se você quer ter um acordo rápido, precisa investir, da mesma maneira que faz quando quer agilizar processos ou agilizar a produção. No caso das negociações, você precisa investir no relacionamento, na confiança, na credibilidade. Os melhores negociadores que eu conheço são os que mais investem para manter reputações de justos e honestos. Dessa forma você consegue fazer negociações muito rápidas. E existe alguma situação em que sacrificar o relacionamento possa ser justificável? Eu diria que sim. Seria uma situação rara, mas, por exemplo, imaginemos um casamento em que o marido agride a mulher. Ela precisa sair desse relacionamento, não é algo que possa ser negociado. Então, nesse sentido, sim, há certas situações em que não vale a pena. Nos negócios, imagine um caso que envolve um esquema de corrupção – você não precisa desse relacionamento. Você acha que muitas vezes falhamos em uma negociação porque não conseguimos enxergar qual é realmente o problema? Sim. Vou te explicar com outro exemplo. Há alguns anos, o empresário Abílio Diniz pediu que eu tentasse fazer uma negociação com o grupo Casino e Jean-Charles Naouri (chairman do grupo). Era uma situação em que o conflito já havia se tornado muito danoso. O jornal Financial Times de Londres afirmava que era o maior confronto corporativo transcontinental dos últimos tempos (risos). Eles brigavam muito. A primeira vez que sentei para conversar com Abílio, ele quis saber se eu poderia achar uma solução. Eu disse: “claro”. E perguntei o que ele queria. E ele disse que queria uma quantidade de ações, uma certa quantia em dinheiro, um acordo de não-competição de três anos, a sede da empresa, ele tinha toda uma lista. E eu disse: “Não, Abílio, o que é que você realmente quer?”. Tentei fazer com que ele se distanciasse da situação e se concentrasse no que realmente importava para ele. Ou seja, enxergar qual era realmente o objetivo. E ele me olhou, depois de pensar um pouco e disse: “Liberdade. É isso que eu quero. Minha liberdade”. E eu perguntei: “Por que você quer liberdade?” E ele respondeu: “Para passar tempo com minha família, que é a coisa mais importante para mim. E quero liberdade para fazer novos negócios, porque gosto disso”. Com isso estabelecido, ficou mais fácil resolver os anos de conflito. Quando eu encontrei o representante de Naouri em um restaurante em Paris, ele disse: “Como você lidaria com essa negociação? Porque todo mundo está perdendo com essa situação'. E eu disse que era verdade. Só os advogados estavam lucrando com tudo aquilo. Todo mundo estava perdendo. As empresas, os funcionários. Foi aí que eu respondi: bem, se focarmos naquilo que ambas as partes realmente querem, o que precisam de verdade, então talvez possamos chegar a algum lugar. Até onde eu vejo, as duas coisas que eles mais querem são liberdade para continuar vivendo suas vidas e dignidade. Eles não querem deixar a impressão de que perderam para a outra parte. Eles querem ser respeitados. Nós tomamos, então, esses dois princípios como base, como os interesses centrais, liberdade e dignidade para cada homem, e passamos 45 minutos, talvez nem isso, esboçando um acordo que permitiria que cada lado conseguisse isso. Com três ou quatro dias, os dois já estavam em um escritório em São Paulo, assinando um acordo, cumprimentando-se amigavelmente. Foi uma vitória mútua. Como ter mais sucesso na identificação do problema e evitar que uma negociação se torne um monstro bem mais difícil de enfrentar, como foi nesse caso entre Abílio e Naouri? Eu acredito que há uma pergunta de ouro nessas horas: por quê? “Eu quero um aumento no salário”. Mas por quê? É porque você quer o reconhecimento? É porque você precisa do dinheiro para cobrir gastos de problemas de saúde na família? É porque você descobriu que seus colegas estão ganhando um salário maior que o seu? Qual a sua motivação? Pergunte o porquê. Assim, quando você identificar a motivação por trás e perceber, por exemplo, que o que você quer é reconhecimento, mesmo que não haja muito dinheiro sobrando no orçamento, você pode ganhar um cargo melhor, ou talvez receber uma tarefa profissional importante na frente da equipe. Enfim, você pode ser mais criativo. Quanto mais se aprofunda, investigando a motivação, entendendo quais são seus desejos, maiores são as possibilidades de encontrar maneiras de atender seus interesses. Talvez a empresa não tenha tanto dinheiro agora. Mas quem sabe eles não possam lhe dar um aumento em seis meses, ou uma participação nos lucros ou comissão em vendas se você for um vendedor? São muitas as possibilidades quando você entende o que realmente quer. E como agir numa negociação quando a outra parte não está sendo justa? As pessoas pensam que o propósito da negociação é chegar a um acordo. Eu vejo isso de forma diferente. Eu acho que o objetivo da negociação é avançar com seus interesses, para conseguir o que você precisa. Você usa a negociação para ver se consegue algo melhor do que conseguiria se não negociasse, algo melhor que sua Batna (sigla em inglês para Best Alternative To a Negotiated Agreement, que significa Melhor Alternativa a um Acordo Negociado e se refere à saída considerada por você caso seu objetivo na negociação não seja alcançado). Se o outro lado está jogando sujo, a primeira coisa que você precisa fazer é se distanciar, observar bem a situação, porque às vezes ficamos com medo quando o outro lado não está jogando limpo. Pensamos: “Ah, nós temos que ceder porque eles têm mais força”. Ou: “Temos que ceder porque temos um relacionamento”. Nada disso. Você se distancia, reflete sobre suas prioridades, pergunta a si mesmo: “Meus interesses estão sendo atendidos nesta situação? Estão me oferecendo um acordo injusto?” E aí então você olha para sua Batna, sua “melhor segunda opção”. O que você vai fazer para satisfazer seus interesses se não conseguir chegar a um acordo? Se você está numa situação injusta no trabalho, por exemplo, sua melhor alternativa, sem um acordo, é encontrar outro emprego. Então você sempre deve procurá-la. Às vezes, chegamos a situações em que pensamos: “Ah, tenho que aceitar isso porque não tenho alternativa”. E é por isso que é importante saber, quando você está se preparando para uma negociação, qual é o melhor resultado que você espera. Sua Batna irá protegê-lo de situações que se tornam injustas. E você também pode ser persistente. Se o acordo é injusto, questione. Uma das coisas mais poderosas em negociações é fazer boas perguntas. Você pode dizer: “Você é uma pessoa inteligente. Ao fazer essa proposta, você deve ter boas razões para achar que é justa, então me diga quais são essas razões”. Descubra quais são os critérios. Se a situação fosse ser julgada em um tribunal, como um juiz resolveria? Ou, voltando ao contexto do trabalho, se você está em uma negociação de salário e a oferta não é justa, você pode falar: “Aqui estão os valores praticados pelo mercado e o quanto as pessoas com minhas qualificações ganham por isso”. Em vez de apenas dizer que algo é injusto, você apresenta um argumento e conduz um diálogo baseado em critérios objetivos, com sua Batna em reserva.