Bravura não é ausência de medo. É agir apesar dele. E essa força nasce quando o cérebro aprende a enxergar o desconforto como parte natural do crescimento Uma noite, um simples alarme de incêndio num hotel virou um experimento emocional para dois netos. Um deles entrou em pânico; o outro vibrou com a 'aventura'. Mesma situação, reações opostas. A explicação? Um conceito da neurociência chamado atribuição de valência — o processo pelo qual o cérebro associa emoções positivas ou negativas às nossas memórias. Essa diferença aparentemente trivial entre medo e empolgação pode determinar o quanto reagimos bem — ou mal — diante dos desafios do trabalho, da liderança e da vida. Como o cérebro decide o que é 'bom' ou 'ruim' Pesquisadores da Salk Institute descobriram que essa atribuição depende de um mensageiro químico chamado neurotensina. Quando o cérebro libera essa substância, uma experiência tende a ser armazenada como positiva; quando ela está ausente, o cérebro privilegia o negativo. A lógica é evolutiva: o medo protegeu nossos ancestrais de perigos, então o cérebro assume que o desconhecido é ruim até que prove o contrário. Mas há um detalhe fascinante: é possível treinar o cérebro para mudar a valência de uma memória — ou seja, transformar um evento ruim em aprendizado, e o medo em coragem. Ver todos os stories 6 hábitos que sabotam seu crescimento O nordestino que ousou fazer o impossível O que está em jogo com a 'PEC da Blindagem' Uma verdade sobre suas assinaturas de streaming que você não vê Boninho, The Voice e a lição da reinvenção Reenquadrar é reprogramar O neto que reagiu bem ao segundo alarme de incêndio simplesmente redefiniu o significado da experiência. Em vez de perigo, ele enxergou segurança — um sistema que funcionava. Esse mesmo processo vale para fracassos profissionais. Um pitch que deu errado pode gerar uma memória de vergonha ('sou péssimo nisso') ou uma de crescimento ('aprendi a não repetir esse erro'). Ao reinterpretar o evento, você muda o rastro emocional que ele deixa no cérebro — e, com o tempo, o medo de falhar dá lugar à autoconfiança. Antes de agir, reforce seu senso de valor Outro recurso vem da psicologia: um estudo publicado na Psychological Science mostrou que afirmações de autovalor — lembrar-se do que você faz bem — reduzem a intensidade das emoções negativas após um fracasso. A confiança é situacional. Você pode se sentir seguro liderando sua equipe, mas travar diante de investidores. Por isso, antes de encarar uma situação desafiadora, recorde sucessos anteriores. O cérebro transfere essa autoconfiança para novos contextos, equilibrando o medo e aumentando a resiliência. Nomeie o que sente Emoções genéricas, como 'estou estressado', tendem a amplificar o negativo. Já sentimentos granulares ('estou ansioso', 'estou preocupado', 'estou sobrecarregado') ajudam o cérebro a processar e modular a resposta emocional. Identificar com precisão o que se sente é o primeiro passo para não ser dominado pelo medo. Treine o cérebro para reagir melhor A mensagem central da pesquisa é simples: você não controla o que acontece, mas pode controlar o significado que atribui a cada evento. Atribuir uma valência positiva — mesmo em situações adversas — fortalece o sistema neural da coragem. Bravura, afinal, não é ausência de medo. É agir apesar dele. E essa força nasce quando o cérebro aprende a enxergar o desconforto como parte natural do crescimento.