Pesquisa da ANBIMA mostra que metade dos jovens de 16 a 29 anos já teve contato com apostas, enquanto 78% afirmam já guardar dinheiro ou pretendem se preparar para o futuro A relação da Geração Z com dinheiro reúne comportamentos que, à primeira vista, parecem contraditórios. Enquanto uma parcela relevante dos jovens demonstra interesse por alternativas de retorno imediato, como as bets, a preocupação com aposentadoria e formação de reserva também aparece com força. Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizado pela ANBIMA, 50% dos brasileiros entre 16 e 29 anos já tiveram contato com apostas, ao mesmo tempo em que 78% afirmam já guardar dinheiro ou ter intenção de fazê-lo pensando na aposentadoria. Apostas ganham mais espaço entre os mais jovens No conjunto da população brasileira, 17% afirmam realizar apostas. Quando o recorte é feito por geração, o envolvimento é maior entre os públicos mais jovens. Entre os Millennials, 45% já tiveram contato com apostas. Na Geração X, o percentual chega a 34%, enquanto entre os Boomers fica em 27%. Os dados ajudam a mostrar como as bets passaram a disputar espaço no orçamento de diferentes faixas etárias, especialmente entre pessoas mais conectadas ao ambiente digital. Para Lucas Magalhães, diretor executivo da GTN Group no Brasil, uma eventual redução desse tipo de gasto pode abrir espaço para outras decisões financeiras. 'O fim das bets pode trazer uma discussão importante sobre como as pessoas alocam seus recursos. Não significa que o montante hoje destinado às apostas migrará automaticamente para aplicações financeiras, mas abre espaço para uma mudança de hábito: em vez de gastar com apostas, passar a poupar e investir, criando uma reserva financeira e construindo patrimônio ao longo do tempo.', afirma. Preocupação com aposentadoria também aparece cedo Apesar da exposição às apostas, a Geração Z demonstra interesse em construir segurança financeira no longo prazo. Segundo o levantamento, 78% dos jovens já começaram a guardar dinheiro para a aposentadoria ou pretendem fazê-lo. Entre os Millennials, esse índice é de 76%, enquanto na Geração X chega a 67%. A pesquisa indica, portanto, que a busca por retorno rápido não elimina necessariamente o interesse por planejamento financeiro. Os dois comportamentos podem coexistir dentro da mesma geração. Redes sociais lideram busca por informação financeira A forma como os jovens procuram informações sobre dinheiro também ajuda a explicar parte desse comportamento. Entre integrantes da Geração Z, o YouTube é utilizado por 49% como fonte de informação financeira, seguido pelo Instagram, com 45%. Outros 29% recorrem a buscadores, enquanto ferramentas baseadas em grandes modelos de linguagem, os LLMs, já aparecem na rotina de 17%. Entre os Boomers, o consumo de informação financeira é diferente. A televisão aparece com 23%, seguida pelo YouTube, com 14%, revistas e jornais, com 11%, buscadores, também com 11%, e WhatsApp, com 11%. Ferramentas de inteligência artificial são utilizadas por 2%. 'A Geração Z cresceu em um ambiente digital, acostumada a consumir informações por diferentes canais e a tomar decisões de forma rápida e conectada. Esse comportamento também se reflete na maneira como lida com seus investimentos. Com um perfil mais 'asset light', tende a priorizar flexibilidade e liquidez, evitando imobilizar patrimônio em ativos de alto valor, como imóveis e automóveis, especialmente diante dos elevados custos de aquisição e manutenção. Nesse contexto, demonstra maior interesse por outras classes de ativos, especialmente investimentos financeiros que oferecem maior liquidez e flexibilidade na alocação de recursos.', explica Magalhães. Educação financeira muda percepção sobre as bets Outro dado do levantamento chama atenção para a relação entre conhecimento financeiro e a maneira como as apostas são percebidas. Entre brasileiros sem educação financeira, 77,12% consideram as bets uma forma de investimento. Entre aqueles que possuem educação financeira, esse percentual cai para 20,62%. A diferença reforça o peso do conhecimento na avaliação de risco e na separação entre produtos de investimento e atividades baseadas em aposta. 'Esse dado mostra como a educação financeira é fundamental para que as pessoas entendam que há diferença entre buscar retorno por meio de um investimento e apostar. Quanto maior o conhecimento sobre produtos e riscos, maior a capacidade de tomar decisões financeiras de forma consciente', conclui o diretor. Os números mostram uma geração que combina hábitos típicos do ambiente digital com preocupações financeiras de longo prazo. Para empresas e instituições do mercado, entender essa sobreposição tende a ser cada vez mais importante para desenvolver produtos, comunicação e iniciativas de educação financeira voltadas aos investidores mais jovens.