Roberto Szachnowicz, conselheiro veterano de empresas, revela os sinais de complacência que envenenam decisões estratégicas e como escapar deles.
Roberto Szachnowicz é conselheiro de empresas com trajetória consolidada em governança e gestão estratégica. Ao longo dos anos, ocupou a cadeira de onde se vê com mais clareza o que funciona e o que destrói valor dentro das salas de decisão. É dessa observação privilegiada que ele destila os padrões que separam C-Levels que decidem bem de líderes que se cercam de eco. Nesta conversa, ele apontou um sintoma silencioso que pouca gente leva a sério: quando ninguém discorda, a estratégia já está morta, só ninguém avisou.
Dados Que Ninguém Questiona São Dados Que Ninguém Audita
Pergunta: “Quando você entra numa sala de conselho e o time aprova tudo em dez minutos, o que isso significa?”
Insight de Roberto Szachnowicz: “Olhar primeiro os dados e fatos que tem, é fundamental ter isso para analisar a decisão. Depois, o ambiente e as circunstâncias, porque eu estou tentando fazer algo macro. Aqui cabe o cenário macroeconômico, o cenário da empresa também. E claro que a diretoria deve estar alinhada, o clima deve ser considerado para tomar as decisões. Importante usar a análise SWOT, é básico.”
A resposta de Szachnowicz parece concordância, mas é o contrário. Alinhamento saudável nasce da análise completa, não da pressa. Time que aprova tudo rápido geralmente não debateu nada. A disciplina que ele descreve, dado auditado, ambiente mapeado, SWOT na mesa, cria espaço natural para discordância com fundamento. O C-Level que pula essa etapa não tem time alinhado. Tem time acuado. E estratégia decidida sem fricção não é consenso, é capitulação elegante.
O Executivo Desatualizado Não Recebe Contraponto, Ele Recebe Silêncio
Pergunta: “Onde os C-Levels mais estão errando nas decisões hoje?”
Insight de Roberto Szachnowicz: “Dados não auditados. O VUCA tem influenciado muito. Ele precisa estar sempre muito atualizado, e não estar pode causar os erros. Tem muito executivo que se recusa a entender a nova realidade, não gosta, tem medo, o que for. E nessa realidade não pode, precisa ser muito atualizado.”
Aqui está o mecanismo que mata a estratégia por dentro. Executivo desatualizado toma decisões para um mundo que não existe mais, e ninguém no time tem coragem ou repertório para corrigir. O VUCA amplifica o problema: quando o cenário muda rápido, a janela para alguém apontar o erro é estreita. Se a cultura pune quem discorda, o erro atravessa o trimestre inteiro sem ser questionado. O remédio é duplo: atualização contínua como hábito de gestão e auditar cada dado antes de deixar a informação entrar no modelo mental. Input podre não gera debate. Gera consenso vazio.
Ouvir É a Única Tecnologia Que a IA Não Instala
Pergunta: “Com a IA ocupando cada vez mais espaço na mesa de decisão, o que separa o líder que sobrevive?”
Insight de Roberto Szachnowicz: “O humano sempre foi força motriz por trás das mudanças de tudo. Como ficamos cada vez mais acomodados com a IA. Pessoas que souberem se conectar, que tiverem esse senso de onde usar a IA e onde não usar. A sua capacidade de ouvir vai ser diferencial.”
Este é o insight mais perigoso da conversa. A acomodação com a IA cria um novo tipo de sala unânime: todos concordam porque todos consultaram o mesmo algoritmo. Diferencial competitivo deixa de ser ter a ferramenta, todo mundo terá, e passa a ser a capacidade de ouvir o que nenhum dashboard captura: a hesitação do time, o silêncio em reunião, o sinal fraco de que a estratégia não convence. Líder que ouve bem quebra a unanimidade artificial antes que ela vire prejuízo contábil.
A Revolução Silenciosa Que Está Mudando o Jogo
As empresas de referência da Fortune 500 já trataram isso como sistema. A Amazon adotou o princípio ‘disagree and commit’, exigindo que líderes expressem discordância aberta antes de qualquer decisão, e substituiu apresentações por memos de seis páginas justamente para forçar leitura crítica em vez de aprovação passiva. A Intel, na era de Andy Grove, instituiu a ‘confrontação construtiva’ como norma cultural, onde questionar a hierarquia era obrigação, não insubordinação. A Netflix institucionalizou a franqueza radical no feedback, aceitando que conforto cultural custa mais caro que conflito de ideias.
O padrão é claro: nas empresas que vencem, discordância é processo, não acidente. A maioria das companhias ainda opera no oposto, confundindo harmonia com alinhamento e velocidade de aprovação com eficiência. O resultado aparece meses depois, quando a estratégia construída sem fricção encontra o mercado sem defesas. Quem quiser estruturar isso de forma consistente encontra suporte em frameworks de governança e gestão de metas, como OKRs bem calibrados, que criam rituais naturais de debate e recalibragem.
A Pergunta Que Vai Tirar Seu Sono
“Sua última grande decisão foi debatida de verdade ou aprovada de coração leve?”










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