Conceitualmente, ética é uma área de estudo da filosofia que trata dos valores
morais, assim como dos princípios resultantes desses valores, com o objetivo de
nortear o caráter humano.
E qual a importância da ética em nossas vidas, principalmente sob o aspecto profissional?
Resumidamente, a ética atua de forma complementar ao engenho e à arte, levando
o indivíduo a refletir não só acerca da eficiência e da eficácia de um dado
saber, mas também a respeito do que é certo e do que é errado para si e para os
outros. Dessa forma, o conhecimento da ética auxilia no desenvolvimento do ser
humano, tornando-o capaz de contribuir com a coletividade sem comprometer o
equilíbrio social.
E quando o ser humano ignora os princípios éticos, seja no exercício de sua
cidadania, seja no exercício de uma profissão? O que ocorre? O resultado é uma
distorção que conduz a uma situação de desordem social, intencional ou não.
Certa vez, Padre Antônio Vieira (1608-1697) proferiu para pregadores o
Sermão de Santo Antônio, no qual o padre critica a ineficácia da ação dos
pregadores por meio de uma metáfora envolvendo o sal e a terra. Em linhas
gerais, Antônio Vieira atribuiu a ineficácia dos pregadores de sua época tanto
ao sal, pois não salga, quanto à terra, que não se deixa salgar. E dentre as
possíveis causas de o sal (os pregadores) não conseguir salgar a terra,
citou-se o fato de alguns pregadores agirem contra a doutrina que pregam.
Quando lemos o sermão do Padre Antônio Vieira e contextualizamos com a nossa
realidade social, deparamo-nos com diversos exemplos eclesiásticos e não
eclesiásticos de desvios éticos. Um deles, devido à sua relevância, merece ser
destacado aqui: a corrupção de agentes públicos.
Um agente público corrupto gera prejuízos não só à entidade ao qual está
vinculado, mas também à coletividade atendida por seus serviços, na medida em
que deixa de exercer adequadamente as atribuições que lhe são conferidas e
pelas quais é pago com recursos públicos. Invariavelmente, a corrupção do
agente público envolve o desrespeito aos princípios elencados no caput
do art. 37 da Constituição Federal do Brasil, o famoso LIMPE: Legalidade,
Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência.
Para ilustrar o disposto no parágrafo anterior, consideremos os recentes
casos de corrupção policial em comunidades do município do Rio de Janeiro,
algumas delas com unidades de polícia pacificadora (UPP): em reportagem
apresentada em 10/03/2013 pelo Fantástico, da Rede Globo, policiais de uma
comunidade da região central da cidade pedem propina a traficantes e os
pressionam a alavancarem as vendas de drogas explorando mão de obra infantil.
Não obstante a inversão de valores da situação relatada, onde um agente público
que é pago para servir e proteger a população “protege e serve” traficantes,
ainda nos deparamos com o absurdo de escutar uma gravação na qual um policial
incita a utilização de menores numa prática ilícita que contribui para a morte
de colegas de farda que tentam combater o tráfico, fomenta a violência e causa
a morte de inúmeros usuários de drogas todos os anos, devido ao efeito
devastador desses entorpecentes no organismo.
O caso de corrupção policial em questão ajuda a entender concretamente as
consequências do desvio ético de um agente público na segurança pública do
município do Rio de Janeiro: atualmente, apesar de todos os esforços do poder
público fluminense no combate ao tráfico e à violência resultante deste, a
sensação de insegurança em muitas localidades do Rio de Janeiro ainda é muito
grande. Em localidades da periferia carioca (como em Madureira,
Ilha do Governador e Santa
Cruz), tal sensação de insegurança é reforçada pela existência de
cracolândias e de tráfico de drogas ativo, embora o policiamento ostensivo
nessas localidades tenha aumentado nos últimos anos. Em síntese, parece que o
sal não consegue salgar.
Como paliativo, a corrupção é um desvio ético que se verifica em uma pequena
minoria de agentes públicos. Contudo, ela deve ser combatida e devidamente
punida, sob o risco de o cidadão deixar de acreditar na idoneidade do Estado em
atender às necessidades básicas daquele. Ademais, não podemos olvidar que nossa
sociedade ainda apresenta gritante injustiça social, o que não nos permite que
vejamos nosso dinheiro ser gasto com alguns poucos que atentam contra seus próprios
colegas de profissão, contra a instituição que servem, e contra a própria
sociedade da qual fazem parte.
Por derradeiro, não podemos esquecer que não basta o sal tentar salgar. Como
indivíduos, profissionais e/ou cidadãos, devemos assegurar que a terra se
permita salgar. Afinal de contas, num ordenamento social, cada indivíduo é
responsável pelo bem-estar do todo. Para tanto, ter uma conduta ética é
fundamental.








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