Mediei um painel sobre IA no poder público e saí com uma certeza: o desafio não é só adotar a tecnologia. É mudar a gestão na mesma velocidade.
No dia 29 de outubro, subi ao palco do AI Brasil Experience, no Distrito Anhembi, em São Paulo, para mediar o painel “Da estratégia ao case: como Estados e Cidades estão aplicando IA na vida do cidadão”. Ao meu lado estava Armando Junior, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo.
Levei uma pergunta para a conversa: como a IA que o governo adota vira, de fato, valor na vida das pessoas? O próprio evento deu a moldura, organizado em torno de três palavras: eu, nós e todos nós. A IA passa pela forma como cada um decide, muda o jeito como as equipes trabalham e, no fim, mexe com a sociedade inteira.
A reação do público me surpreendeu. Quando se fala no poder da IA, o setor público raramente é o primeiro assunto que vem à cabeça. Pesa a imagem de uma máquina lenta, sempre um passo atrás do mercado. Mesmo assim, a plateia abraçou o tema do começo ao fim. As pessoas querem entender como a tecnologia chega na vida real, e é no serviço público que ela chega para todo mundo.
A IA deixou de ser projeto e virou infraestrutura
Quem ainda imagina a IA no governo como projeto-piloto de gabinete está olhando para um retrato antigo. Em São Paulo, ela já aparece em frentes muito diferentes: câmeras inteligentes na segurança, sensores que orientam o recape das ruas, dados climáticos que antecipam a manutenção contra alagamentos e cursos de IA para quem procura trabalho. São áreas com orçamentos, equipes e urgências distintas, e todas já usam a mesma camada de tecnologia.
Um caso mostra o que muda na ponta. Na avenida Roque Petroni, no Jabaquara, uma chuva de 17,4 milímetros deixou a via alagada por 3h45 em janeiro de 2018. Em janeiro de 2024, com quase cinco vezes mais chuva, o alagamento durou 26 minutos. Segundo a prefeitura, a diferença veio da frota de hidrojatos, que passou de 24 para 60 caminhões e é despachada pelas ordens de serviço do Urano, o sistema que cruza dados climáticos. O dado chegou antes da água.
“A inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta restrita à área de tecnologia e passou a integrar a estratégia de desenvolvimento de políticas públicas da Prefeitura de São Paulo, na gestão do prefeito Ricardo Nunes. Colocamos no Plano de Metas da Prefeitura a criação de um Hub de IA, a estruturação do Distrito de Inovação, aplicamos inteligência artificial em diversos programas e isso vem se traduzindo em melhores serviços públicos e resultados concretos para a população. Afinal, o cidadão não precisa ver o algoritmo, ele precisa perceber que a cidade funciona melhor”, explica Armando Junior.
Uma coisa é a iniciativa. Outra é a estrutura
Lançar iniciativas que melhoram a vida do cidadão é uma coisa. Outra, bem mais difícil, é transformar a estrutura que faz essas iniciativas acontecerem. Em muitos casos, a IA ainda segue subutilizada dentro do próprio poder público.
Não é um desafio só brasileiro. Em setembro de 2025, a OCDE publicou o relatório *Governing with Artificial Intelligence*, com a análise de 200 casos de uso de IA em governos. A conclusão é que muitas iniciativas continuam presas na fase de piloto, travadas pela falta de métricas de impacto, por lacunas de competência e pela dificuldade de acessar e compartilhar dados de qualidade.
Quando a estrutura acompanha, o ganho de produtividade aparece. No Reino Unido, mais de 20 mil servidores usaram uma ferramenta de IA generativa no dia a dia por três meses, em um teste conduzido pelo próprio governo. Segundo os participantes, a economia média foi de 26 minutos por dia, quase duas semanas por ano para cada pessoa. O governo britânico diz que esse tempo vai para tarefas de maior valor. Para mim, é isso que o número mostra: não um servidor a menos, mas um servidor com menos papelada e mais tempo para o que só ele faz, que é atender, decidir e cuidar do serviço público.
Esse ganho, porém, não se organiza sozinho. O tempo que a IA libera pode virar um atendimento melhor ou pode virar mais demanda dentro da mesma jornada: mais volume, prazos mais curtos, a sensação de estar sempre correndo atrás da ferramenta e uma dúvida silenciosa sobre o próprio lugar. Isso tem nome. São riscos psicossociais, e eles nascem da forma como o trabalho é organizado, e não de quem o executa. Gerir a IA, no setor público ou em qualquer empresa, é também decidir para onde vai o tempo ganho, com metas realistas, clareza sobre o que muda em cada função e espaço para quem ainda está aprendendo. É a mesma lógica que a NR-1 passou a cobrar das empresas: olhar para o ambiente de trabalho antes que ele adoeça.
A mudança mais difícil é de gestão
Acompanhar a disrupção exige mais do que programas e fomento. A máquina pública foi desenhada para a previsibilidade: ciclos orçamentários anuais, licitações longas, carreiras estáveis. A IA trabalha em outro relógio, e os mercados mudam em meses.
Há ainda um ponto que não é exclusivo do governo. Toda organização reúne hoje quatro ou cinco gerações na mesma equipe, e a distância entre elas não é de idade, é de referência: quem começou com processo em papel trabalha ao lado de quem chegou com o celular na mão. Isso não tem sido uma grande barreira, mas é um desafio. No poder público, ele pesa mais, porque essas pessoas decidem sobre o mesmo cidadão, e a mudança de cultura precisa falar com cada uma dessas referências, e não com uma média que não existe.
Por isso, a mudança mais difícil é de cultura e de perfil, e cabe ao próprio Estado conduzi-la. O servidor que passa a usar IA no dia a dia precisa de formação, de clareza sobre o que pode delegar e de alguém que responda pelas decisões. Quando Goiás anuncia até 20 mil licenças de IA para servidores, ou quando o Reino Unido mede o uso com os próprios funcionários, a formação deixa de ser iniciativa isolada de quem já gosta de tecnologia e passa a ser política pública.
“Em São Paulo estamos trabalhando para levar a IA para o cidadão e para os servidores. Criamos o Avança Tech, que é o programa de avanço da tecnologia na capital paulista, onde mais de 70 mil pessoas já realizaram cursos online e presenciais, totalmente gratuitos. Também disponibilizamos, via Emasp, cursos de IA para os servidores se adaptarem às novas tecnologias. E na Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho a transformação digital já chegou com a introdução do CRM da Microsoft. Agora os dados do cidadão, além de estarem seguros, passam a ter legado e, com a economia de tempo gerada pela tecnologia, os servidores conseguem mensurar resultados, propor melhorias e antecipar demandas”, destaca Armando Junior.
O futuro do trabalho já é política pública
Não dá para discutir IA no governo sem discutir o futuro do trabalho. O Observatório do Trabalho da Secretaria, com o DIEESE, mostrou que São Paulo tem 221 mil empregos formais em tecnologia, um setor que cresceu 61,2% entre 2015 e 2025. Os especialistas ouvidos no estudo esperam que a IA mude a natureza desse trabalho mais do que reduza o número de vagas.
A pergunta deixou de ser se a tecnologia vai transformar ocupações. Agora é se a gestão, pública ou privada, vai se antecipar ou correr atrás. Antecipar significa ler os dados antes da crise, qualificar antes da demissão e conectar o trabalhador à vaga que ainda está nascendo.
E fazer isso sem deixar ninguém de fora. Quando o Estado adota IA, assume uma responsabilidade que nenhuma empresa carrega da mesma forma: servir a todos, inclusive a quem não tem celular, não domina a tecnologia ou nunca foi bem representado nos dados.
“A inteligência artificial não pode aprofundar desigualdades. Ela precisa ser um instrumento de inclusão produtiva, geração de renda e desenvolvimento econômico para todas as pessoas. Por isso, precisamos antecipar as demandas do mercado, ampliar o acesso à qualificação e conectar os trabalhadores às novas oportunidades. Temos um futuro cheio de inovação pela frente e São Paulo está preparada para puxar o desenvolvimento de novas tecnologias e ajudar o Brasil a viver esse novo momento”, afirma Armando Junior.
O lema do AI Brasil Experience diz que o futuro da inteligência artificial não é sobre máquinas, é sobre todos nós. Para quem faz gestão, a medida do sucesso não é quantos sistemas foram implantados, e sim quanto a vida das pessoas melhorou e quantas delas a tecnologia incluiu no caminho.
Saí do palco pensando mais em ritmo do que em tecnologia. A IA já anda na velocidade do mercado. A pergunta que fica é se a estrutura pública, e cada um de nós dentro dela, vai acompanhar esse ritmo sem deixar ninguém para trás. O futuro do trabalho deixou de ser previsão. Ele já começou, e a escolha agora é entre desenhá-lo ou apenas reagir a ele.









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