Este artigo propõe uma visão bem-humorada de certas figuras da rica fauna corporativa que deveríamos evitar — ou ajudar a se transformar
Ambientes corporativos são fundamentais para as organizações. O sonho é levar nossos talentos e aspirações para jogar em empresas com ambiente de confiança e integridade, que acolha diversidade e encoraje autonomia e intraempreendedorismo, que estimule redes de colaboração, gerando aquele senso de pertencimento impulsionado por propósitos em contínua evolução.
O papel das lideranças é fundamental para moldar diariamente uma cultura de inovação, responsável, saudável, consciente. Mas, claro, todos influenciamos a cultura da organização com nossas atitudes, crenças, interações, rituais, comportamentos.
Este artigo propõe uma visão bem-humorada de certas figuras da rica fauna corporativa que deveríamos evitar ou, para adotar visão mais inclusiva, ajudar em sua transformação para que passem a somar na desafiadora jornada de negócios e adaptação aos futuros prováveis.
Essa abordagem começou com uma de minhas primeiras colaborações com o portal Administradores.com, em setembro de 2016, em texto batizado de “Vai aí um feitiço do patrono para Dementadores Corporativos?“.
O artigo trazia referência a alguns destes perfis negativos como vampiros e zumbis, mas inovando ao trazer à tona o conceito dos dementadores, emprestado da famosa saga de Harry Potter, como aqueles líderes que vão crescendo, inflando seus egos e se desumanizando, perdendo a capacidade de empatia. Incapazes de qualquer visão apreciativa, distribuem críticas agudas e ironias com prazer sarcástico, multiplicando inseguranças, drenando motivações e desequilibrando nosso bem-estar.
Há meses, o amigo Márcio Cavalieri, sócio da agência RPMA Comunicação, em um dos encontros do comitê de inovação que coliderei na Aberje, me ensinou novo termo que ele batizou de “Anestesistas Corporativos”.
Anestesistas são aquelas pessoas que pacientemente ouvem ideais e provocações, mas já entram na história dispostas a anestesiar nosso entusiasmo, pensando em como silenciar aquele corajoso ímpeto de mudança que pode tirá-los da zona de conforto e desestabilizar o status quo.
Aprendi com o Márcio e segui explorando essa ideia, afinal, todos já interagimos com anestesistas corporativos que, normalmente, são educados e polidos. São metódicos, científicos, injetando perfeitamente a quantidade exata de propofol dentro das veias organizacionais para gerar seu efeito sedativo, adormecer sensibilidades e movimentos.
Desconstroem argumentos com eficiência e sofisticação ao contrário dos meros assassinos da inovação, que apelam para “justificativas-coronhadas” mais simplistas e brutais como “isso não é prioridade”, “não temos budget“, “qual o ROI de sua ideia” ou “já tentamos isso várias vezes”.
Outra figura clássica é o cantor solista que lidera a orquestra. Naturalmente, amparado em seu talento, puxa a voz primária de uma música e coordena toda a produção, mas exige ter aquele anacrônico Comando e Controle absoluto que exige total submissão da equipe, e não aceita dividir palcos e holofotes.
Descobri há pouco que um dos grandes gênios da música norte-americana dos anos 1930 e 1940, o clarinetista virtuoso e band leader Benny Goodman, conhecido como Rei do Swing, ficou com péssima fama como liderança, mantendo os artistas em camisas-de-força criativas, gerando um ambiente de colapso emocional em nome da perfeição musical. É fato que as bandas de Goodman se diferenciaram por sua performance incrível e, dentro delas, grandes talentos ainda assim conseguiram se destacar como Gene Krupa, Harry James e Lionel Hampton.
No entanto, esse modelo de liderança autoritária, opressora, invulnerável, perfeita, controlada está totalmente desconectado de nosso espírito do tempo. Felizmente, hoje celebramos líderes geniais em determinadas dimensões, mas já começamos a abandonar a estúpida idolatria de 360 graus por líderes e empreendedores que, sim, tinham grandes talentos que devem ser reverenciados, mas com tantas falhas de caráter e atitudes altamente repreensíveis que não podem servir de modelos completos de inspiração.
Certamente, há muitos outros tipos dentro das organizações que merecem análise para além de vampiros, zumbis, dementadores, anestesistas e band leaders egocêntricos. Perdoem-me os anestesistas do mundo da medicina e os band leaders colaborativos como provavelmente são Herbert Vianna, Samuel Rosa ou Bruce Springsteen. Não quis ofendê-los, mas criar uma analogia divertida para o mundo corporativo no qual habito por décadas.
Talvez uma boa ideia como consequência deste artigo é escrevermos um dicionário colaborativo para ilustrar com criatividade e bom humor as figuras mais comuns da sabotagem e “bullshitagem” do universo das empresas. Quem tiver boas ideias, é só compartilhar que prometo dar os devidos créditos, assim como fiz com meu colega Márcio.
Para finalizar, vale lembrar um ponto extremamente importante. Criticar uma ideia não é sempre nocivo. Não podemos avançar sem oposição, não crescemos sem perspectivas divergentes, não evoluímos sem contraste de ideias. Na política, em nossa vida, nas empresas, contrapontos podem eventualmente nos incomodar, mas são fundamentais para nos transformar.
Ideal que essa oposição seja responsável, respeitosa, apoiada em reais interesses na busca de soluções que melhorem a vida das pessoas, dos clientes, dos funcionários, de parceiros, das comunidades, do planeta.
Viva os Opositores! Fora Anestesistas, Dementadores e Primas Donnas Corporativas!








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