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Negócios e Gestão

“Fail watching”: a tendência cruel que pode corroer equipes por dentro

colegas de trabalho discutindo
Créditos: Adobe Stock
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Tendência expõe uma escolha cultural: equipes podem usar o erro como munição para diminuir alguém, ou como material de aprendizado coletivo

Algumas dinâmicas de trabalho não nascem de processos ruins ou metas mal definidas, mas de algo mais silencioso: a forma como as pessoas reagem ao fracasso alheio. Para a psicologia, existe até uma palavra para isso. Em alemão, schadenfreude descreve o prazer que certos indivíduos sentem diante da desgraça de outras pessoas. Agora, esse impulso ganhou uma versão corporativa que começa a preocupar especialistas.

O fenômeno vem sendo chamado de “fail watching”, algo como “assistir ao fracasso”. A prática acontece quando funcionários passam a observar colegas com expectativa, ou até esperança, de que eles cometam erros. Em alguns casos, o comportamento se assemelha a vídeos populares na internet que mostram pessoas falhando de forma constrangedora. A diferença é que, aqui, o alvo não é alguém que escolheu se expor. É um colega de trabalho, visto de perto, em tempo real.

O que é fail watching

Peter Duris, fundador e CEO da plataforma de carreira Kickresume, define fail watching como a atenção voltada às falhas e dificuldades de colegas, desde um deslize pequeno até situações mais graves, como ser preterido numa promoção. Para ele, assistir a esse tipo de fracasso pode gerar “um senso infeliz de satisfação”, porque faz o observador se sentir melhor sobre a própria situação.

O ponto crítico é que o prazer de ver o outro cair raramente aparece de forma explícita. Ele costuma surgir como comentários irônicos, fofocas, risadinhas durante um erro público, ou um silêncio que carrega julgamento. Quando vira padrão, desloca o foco da equipe para um ambiente de vigilância emocional.

Por que essa prática cresce

Especialistas em relações humanas ligam fail watching ao mesmo apelo que certos conteúdos online têm entre públicos jovens, especialmente a geração Z. Um levantamento mostra que 34% desses jovens admitem “secretamente gostar de ver os outros lutando”. Ainda assim, Duris ressalta que schadenfreude não é exclusividade de uma geração. É um traço humano que atravessa idades, culturas e contextos.

O que muda agora é o ambiente. O mercado de trabalho mais disputado, a pressão para provar competência e a crítica recorrente que parte de colegas mais velhos podem amplificar esse impulso. Ver alguém errar pode funcionar como uma validação interna. Uma espécie de alívio: “pelo menos não fui eu”. Para quem se sente inseguro, o tropeço do outro vira desculpa para respirar.

Quando vira sintoma de cultura ruim

Duris alerta que fail watching é um sinal de falta de confiança dentro do time. Ele descreve o cenário como um grupo “prendendo a respiração esperando alguém errar”. Em ambientes saudáveis, onde as pessoas se sentem apoiadas, esse comportamento tende a ser raro. Já em culturas tensas, competitivas ou pouco transparentes, ele encontra terreno fértil.

Mesmo quando aparece de forma pontual, com apenas uma pessoa observando outra com esse olhar, o fenômeno sinaliza fissuras que podem piorar. Se não for interrompido cedo, pode escalar para bullying. O que começa como prazer discreto pelo fracasso alheio pode virar hostilidade aberta.

O que líderes precisam fazer

Para evitar que a prática se instale, Duris sugere construir uma cultura de comunicação aberta entre colegas. Quando as pessoas conseguem falar sobre conflitos, incômodos e dúvidas de forma direta, as tensões perdem força antes de se acumularem. O incentivo ao apoio mútuo também é central. Equipes que pedem ajuda, treinam juntas e equilibram níveis de performance têm menos espaço para o jogo de comparação.

Quando a liderança identifica fail watching, a resposta precisa ser rápida e firme. Isso inclui perceber fofocas sobre erros, sinais de diversão com o fracasso do outro ou tentativas de se aproveitar de alguém numa fase difícil. A intervenção é uma proteção do time inteiro. Duris diz que até quem já praticou fail watching costuma respeitar gestores que defendem o grupo e impõem limites claros.

No fim, a tendência expõe uma escolha cultural: equipes podem usar o erro como munição para diminuir alguém, ou como material de aprendizado coletivo. A diferença entre uma cultura que esfarela e uma que evolui está no que acontece depois do tropeço. E esse “depois” é sempre responsabilidade da liderança.

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