Ir para o conteúdo
Últimas notíciasÚltimas
Oferecido porCom:Fireflies.ai
Negócios e Gestão

O tarifaço de Trump e a urgência de um novo projeto industrial para o Brasil

Nossos melhores conteúdos em seu WhatsAppEntre no canal do WhatsappEntrar no canal

Nova onda de tarifas dos EUA expõe a fragilidade da nossa agenda de exportação e evidencia a necessidade de uma reindustrialização estratégica e com ambição tecnológica

Mais de 60% das exportações brasileiras seguem concentradas em commodities, como soja, minério de ferro, petróleo e carne. Essa estrutura exportadora, aparentemente eficiente, mascara um problema crônico: a ausência de agregação de valor, inovação e diversificação. Enquanto isso, a indústria de transformação brasileira, que já representou mais de 25% do PIB, hoje responde por cerca de 11%, segundo dados da CNI. Estamos diante de uma desindustrialização precoce e persistente, sem que tenhamos construído uma economia de serviços baseada em conhecimento.

Comparativamente, no início do século XVIII, o governo português abriu mão de seu protagonismo econômico mundial para o Reino Unido durante a revolução industrial e assumiu o ônus comercial de focar em sua indústria de vinhos ao invés de investir em sua indústria têxtil. Essa justificativa ultrapassada, que defende o foco em “vantagens comparativas”, à luz de David Ricardo, é uma armadilha que ignora a realidade do século XXI e a necessidade de países em desenvolvimento de alcançarem sua maturidade produtiva. 

Países bem-sucedidos do nosso tempo não se limitaram às suas supostas vocações naturais. Ao contrário, os grandes exemplos de desenvolvimento econômico têm demonstrado que o foco em vantagens competitivas com políticas industriais, inovação e investimento público coordenado é um alicerce inabalável de um futuro próspero. O Brasil, ao contrário, resignou-se ao papel de exportador de bens primários.

Economistas contemporâneos como Dani Rodrik e Ha-Joon Chang, demonstram de forma clara como a industrialização permanece sendo essencial ao desenvolvimento dos países. Um programa industrial de caráter nacional não apenas gera empregos de qualidade com inovação tecnológica, mas também contribui para o efeito multiplicador na economia. No Brasil, essa lógica foi sendo abandonada sob a promessa de que o mercado global e as reformas macroeconômicas bastariam para gerar crescimento sustentável.

É aqui que o Tarifaço de Trump entra como uma oportunidade de reavaliação desse posicionamento brasileiro. A atitude do governo norte-americano prova que o mundo caminha para uma nova geopolítica produtiva, onde os países disputam cadeias de valor, dominam tecnologias-chave e protegem seus interesses estratégicos. EUA, União Europeia e China estão investindo pesadamente em política industrial. Não é protecionismo retrógrado, mas estratégia de futuro.

O Brasil precisa sair da inércia e tomar as rédeas de seu protagonismo produtivo. Um novo projeto nacional de reindustrialização não pode deixar de combinar pelo menos cinco pilares fundamentais:

1- Política industrial moderna, focada em setores estratégicos como transição energética, biotecnologia, além de semicondutores e defesa digital. O potencial brasileiro na cadeia da indústria farmacêutica aproveitando sua biodiversidade   além do potencial de inovação de polos tecnológico tecnológicos como o aeroespacial de São José dos Campos, podem ser exemplos de como retomar essa política industrial;

2- Ambiente macroeconômico estável e competitivo, com juros razoáveis e política cambial previsível, em especial com programas de desenvolvimento tecnológico voltado ao financiamento de cadeias produtivas inteiras; 

3- Reforma tributária funcional, que elimine distorções e incentive o investimento produtivo;

4- Educação técnica e inovação, com articulação entre universidades, institutos e empresas. Neste caso um programa de educação técnica eficiente deve fomentar modelos de produção científica voltados para inovação tecnológica e produtiva.; 

5- Integração regional e logística inteligente, que desconcentre o desenvolvimento industrial e reduza custos estruturais.

Por fim, o interesse norte-americano em terras raras e minerais estratégicos para a indústria de transformação já demonstrado como ponto sensível dessa negociação, escancara um modelo neocolonial em que países em desenvolvimento são punidos por cogitarem o uso de seus recursos para o desenvolvimento de uma indústria própria e soberana. Ao invés disso, o condicionamento de países em desenvolvimento a exportadores de commodities se revela cada vez mais como uma armadilha para que países desenvolvidos perpetuem seu status de domínio econômico sobre os demais.

Mais do que responder ao tarifaço com notas diplomáticas, o Brasil precisa olhar para si e reconhecer que não há soberania sem capacidade produtiva. A reindustrialização não é nostalgia — é necessidade histórica. Não podemos deixar o legado de Celso Furtado que em sua genialidade nos ensinava que não se pode haver desenvolvimento sem um projeto que mobilize a inteligência e a identidade nacional.

Newsletter

Receba nossos melhores conteúdos todos os dias de manhã no seu e-mail

Conheça a newsletter →

Leia também

Siga o Administradores no Google para receber nossos conteúdos nas sugestões de leitura do seu celular.

Seguir no Google

Para Empresas

Mais lidas

Cursos em destaque

Ver todos
leadershipnegociacaoprojetosavancado-de-consultoriafalando-bemfinancas-essenciais